quinta-feira, 3 de maio de 2012

Guia de carreiras: Pedagogia

O pedagogo deixou de ser apenas aquele profissional de educação que atua dentro das escolas. Apesar de haver um desprestígio da carreira, do salário não ser atrativo e de cair o número de candidatos que buscam cursos superiores nesta área, especialistas garantem que o mercado de trabalho está cada vez mais amplo.
Quem se forma em pedagogia está habilitado a atuar dentro das escolas. Esta atuação pode envolver a educação infantil, que corresponde a creches e pré-escola, o magistério nas séries iniciais do ensino fundamental, que seria do primeiro ao quinto ano, podendo ensinar matérias pedagógicas em cursos normais e na área de gestão do colégio, coordenação e orientação pedagógica. Nos espaços não-escolares, os profissionais também saem habilitados a trabalhar em ONGs, museus, brinquedotecas, bibliotecas, mídias educativas, pesquisa, produção de material pedagógico, políticas educacionais e qualquer espaço que tenha algum tipo de educação envolvida.
A professora e coordenadora do curso de pedagogia da PUC Rio, Zena Eisenberg, destaca ainda outros campos de atuação. "A gama de oportunidades é muito vasta, mas a educação à distância é uma área que está crescendo e requisitando muito a presença de pedagogos. Muitos de nossos ex-alunos também conseguiram oportunidades fazendo consultorias, na elaboração de projetos e no setor de RH."
Zena Eisenberg explica que essa procura das empresas por pedagogos que possam fazer o treinamento do pessoal, é uma saída para quem quer trabalhar com educação sem se restringir à escola. "Vários alunos entram aqui e não tem interesse nenhum em trabalhar na escola. O salário do professor é muito baixo ainda, ele tem sido muito pouco valorizado. Paradoxalmente, cada vez mais as pessoas, as ONGs, as empresas, as TVs estão se dando conta da necessidade de uma pessoa que entenda de didática, de educação, de como transmitir conhecimento. E é o pedagogo quem sabe fazer isso. Como essa perspectiva salarial é melhor, os estudantes têm sido atraídos para esses outros espaços."
São necessários quatro anos de graduação para a formação em pedagogia. A formação completa e preparação pedagógica do profissional se dá através de quatro metodologias: ciências sociais, matémática, língua portuguesa e ciências naturais. A partir daí, os alunos passam quatro semestres completos dentro da escola, fazendo estágios para poder se habilitar a trabalhar com essas quatro áreas. O objetivo do curso é preparar a pessoa para que ela trabalhe de forma educativa, com os materiais e com as pessoas.
As habilidades e competências que um pedagogo tem que ter quando ele sai do curso estão relacionadas a lidar com o outro de uma forma educacional. "Se vai trabalhar com criança pequena ou com jovens e adultos, tem que saber quem é essa criança, como ela aprende, ter metodologias a mão, entender porque ela ainda não está alfabetizada, ter embasamento teórico muito grande para poder entender essa interação e as dificuldades que se apresentam durante essa interação.", explica Zena. 

Desafios da carreira
Zena Eisenberg reforça que o maior desafio para formar bons professores no país, é aliar a teoria e prática. "Historicamente, os cursos de formação de professores no nível normal, no ensino médio, enfatizaram muito a técnica, a metodologia e acabaram encaixotando certas didáticas, que tornaram-se muito automáticas", afirma.
"O que eu faço se uma criança chora, se bate, se ela não acompanha, se faz muito barulho, se atrapalha, são várias as questões do mundo real da sala de aula principalmente que não são contempladas quando você está pensando e enfatizando a teoria no curso."
Segundo ela, o baixo salário que não permite a sobrevivência independente também acaba afastando as pessoas desses cursos. Por isso, a questão de ir para a escola pública ou particular é uma questão que divide os estudantes. A escola pública tem a vantagem de ser uma função estável por depender de um concurso público, já a escola particular paga bem melhor.
O piso nacional da educação para professores com nível médio é de R$ 1.451 para 40 horas semanais. Mas a média salarial de quem se forma em pedagogia varia de estado para estado e município para município. Se o profissional tem um mestrado no currículo, o valor pode aumentar até 20%.
No Brasil, o pedagogo pode atuar apenas com a graduação, mas a busca de especializações, cursos livres, pós-graduação podem ajudar a focar ainda mais na área de escolha, além valorizar a formação.
Fonte: G1

Sem educação não há salvação

A depressão de 1929 teve efeitos devastadores nos Estados Unidos. Da noite para o dia boa parte da riqueza virou pó. A produção industrial caiu 50% e o comércio internacional encolheu 70%. Mais de 5 mil bancos faliram. Agravadas por uma impiedosa seca, as safras fracassaram por completo. O desemprego disparou, chegando à casa dos 25%.
Para dar uma ocupação a milhões de pessoas que estavam sem ter o que fazer, o governo americano, em meio de tantos cortes nos orçamentos, decidiu expandir as bibliotecas públicas para ali acomodar os que estavam desempregados. Assim foi feito. Os acervos aumentaram, os espaços e os horários de funcionamento se ampliaram. Surgiram nessa época as bibliotecas circulantes para atender os leitores das pequenas cidades e da zona rural.
Qual foi a consequência daquela iniciativa? Importantíssima. Durante quase dez anos, milhões de desempregados se ocuparam com a leitura. O resultado foi o previsível: no meio de tantos desastres, o país enriqueceu o seu mais precioso ativo - o capital humano - e com isso enfrentou os desafios da retomada do crescimento.
A história está repleta de exemplos desse tipo. O Plano Marshall teve sucesso na Europa porque, mesmo durante a guerra, a Educação foi preservada. Muitas Escolas funcionaram até mesmo em dias de bombardeio.
Depois da terrível devastação nuclear de Hiroshima e Nagasaki (agosto de 1945), o Japão se levantou com base no bom preparo da sua gente. A Coreia do Sul ressurgiu das cinzas após o conflito dos anos 50 e renasceu novamente depois da crise de 1998 - nos dois casos, com base na Educação do seu povo.
Li com muita atenção a matéria da revista The Economist (10/3/2012) que revelou uma interessante recorrência nos Estados Unidos: neste ano de 2012, no meio da recessão que ainda assola aquele país, 60% dos americanos de 16 a 24 anos - um recorde histórico! - estão matriculados nas universidades americanas. Mais fantástico é verificar que, entre 2005 e 2011, as bolsas de estudo passaram de 5,5 milhões para 9,6 milhões. O crédito para pagar as matrículas também aumentou de forma expressiva.
Nos Estados Unidos, 50% dos jovens entre 18 e 19 anos estão matriculados nas universidades. E mais: 16% dos que têm mais de 35 anos estudam em Escolas de nível superior, ainda que em tempo parcial.
Como se vê, no momento em que faltam empregos, os jovens decidiram sentar nos bancos Escolares. Tudo indica que a história vai se repetir. Os Estados Unidos sairão da recessão atual com mais capital humano. Tenho dúvidas de que isso venha a acontecer com os países mais afetados pela crise na Europa (Portugal, Espanha, Itália, França e Grécia), que estão cortando fundo os orçamentos da Educação.
No Brasil, por sua vez, estamos desperdiçando a oportunidade dos bons ventos da economia. Sim, porque, mesmo com todos os incentivos do Pro-Uni, menos de 15% dos jovens cursam as Escolas de nível superior. A taxa média de evasão é de 22% e, nas Escolas particulares, onde está a maioria dos alunos, chega a 26%. Nessas Escolas, a ociosidade atinge 52% das vagas existentes.
Esse quadro precisa mudar não apenas no aspecto quantitativo, mas, sobretudo, no qualitativo. A julgar pelo desempenho dos estudantes nas provas de avaliação, verifica-se que a qualidade do ensino da grande maioria de nossas faculdades está fortemente comprometida pelo conluio entre Escolas que fingem que ensinam e alunos que fingem que aprendem. Uma farsa.
A melhoria da Educação, além dos visíveis impactos nos campos da cidadania e da democracia, é crucial para elevar a produtividade do trabalho e a competitividade das empresas e da economia como um todo. Para os trabalhadores, é essencial para a elevação da renda e o progresso na carreira. No mundo competitivo, sem Educação, não há salvação.
José Pastore, in: O Estado de S. Paulo (SP)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Exemplos de práticas didáticas não ensinadas aos professores

Durante esta semana, o iG mostrou como o professor tem pouca chance de aprender a ensinar. As faculdades têm apenas 5% a 10% de todo o conteúdo voltado a métodos e práticas docentes e a formação dentro da escola, prevista em lei, não ocorre ou se perde em questões burocráticas.
O problema se agrava com a velocidade das mudanças tecnológicas e a dificuldade dos docentes de aproveitar o potencial das ferramentas digitais. Na reportagem desta quinta-feira, estão reunidos os exemplos práticos de técnicas pedagógicas dados pelos especialistas que criticam o abandono da formação do professor.

1)   Porta aberta para visitas
“A maneira mais simples e eficiente de trazer a vida real para a escola”, assim a diretora de avaliação da Universidad Cooperativa de Colômbia, Maritza Randon Rangel, descreve a abertura das salas de aula para pais, vizinhos e profissionais convidados, seja para assistir a aula ou participar. “Não é para fazer isso em uma festa, mas em aulas normais, tornar isso comum”, diz. “Alguém sentado no fundo da sala inspira mais respeito ao ambiente de aprendizado, parece que os estudantes pensam ‘vieram ouvir porque isso é importante’. Se alguém vai falar ao lado do professor a mensagem é ‘estão tão interessados em que eu aprenda que trouxeram reforço’” .

2)   Checar os objetivos
O que os estudantes devem aprender ao final desta aula? E para a vida? Como uma coisa levará a outra? A educadora e autora Lea Desprebiteris, especialista em avaliações educacionais, lamenta que a maioria dos professores sigam um roteiro sem ter em mente o exato objetivo de cada atividade no plano de aprendizado. “O planejamento, que costuma ser entregue logo no começo do ano, só deveria ser feito a partir de uma reflexão sobre os objetivos a atingir com aquela turma e até com cada aluno. Ainda assim, ele precisa ser maleável, pois o resultado de uma aula é que vai levar ao realinhamento da próxima para chegar ao ponto desejado.”

3)   Assistir colegas exemplares
Durante 10 anos, o educador norte-americano Doug Lemov observou e filmou professores com bons resultados em diferentes contextos. O material inspirou o livro “Teach Like a Champion”, traduzido no Brasil como “Aula Nota 10” e é base da Escola de Educação Relay. Em visita ao Brasil a convite da Fundação Lemann para o seminário Líderes em Gestão Escolar, o diretor da escola, Norman Atkins, defendeu a observação destes colegas. “Todos temos exemplos, a intenção não é copiar este professor, mas analisar a técnica dos bons educadores e verificar o que é aproveitável”. A palestra completa está disponível no site da Fundação.

4)   Circular pela sala
Entre as técnicas que estão no vídeo e que foram tabuladas pela Relay como ponto em comum dos professores de sucesso está a circulação dos educadores. Eles não ocupam só a frente da sala, mas passeiam para ganhar mais atenção da turma e ter certeza de quem realmente está participando. Com isso, aproximam-se dos alunos e inspiram neles a sensação de que estão sendo cuidados.

5)   Equilíbrio na participação dos alunos
De acordo com estudos da mesma instituição, os professores que falam 99% do tempo não têm bons resultados de aprendizado. Da mesma forma, em uma sala em que só os alunos falam, por estarem trabalhando com pouca supervisão ou porque o professor não consegue a atenção, não há boa aprendizagem. “Nossas pesquisas apontam que o melhor ponto é 43% para o professor e o restante para os alunos falarem ou pensarem nos exercícios”, diz Atkins.

6)   Tempo para as respostas
Uma das principais práticas que diferenciam os professores filmados é a forma de elaborar questões. De acordo com o estudo, os melhores professores fazem as questões mais rigorosas e desafiadoras para manter os alunos constantemente pensando. Em outro vídeo, Lemov explica como o simples controle do tempo para resposta pode gerar aprendizado. “É um paradoxo, quanto mais tempo o professor perde esperando que os alunos estejam prontos, mais tempo de aprendizado ele ganha”.

7)   Incentivar a pesquisa e evitar cópias
Trabalhos feitos com ajuda do computador podem conter pesquisas mais elaboradas e aumentar o envolvimento dos estudantes com os temas. Para evitar as temidas cópias, o coordenador de informática educativa do Colégio Ari de Sá, Alex Jacó França, indica a atuação em duas frentes. A primeira é simples: colocar trechos suspeitos nos buscadores da internet e verificar se não são encontradas publicações iguais. “É importante que o professor saiba checar isso e encontrar as fraudes”, diz. Neste caso, deve-se lidar com o problema como se fazia com a cola. A segunda ação do docente deve ser incentivar vídeos, peças interativas e formas de expor que privilegiam a criatividade e dificultam o uso de material alheio. “Os estudantes querem trabalhar isso, o professor que dá esta abertura ganha pontos.”
Fonte: iG

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Salve, queridos diqueiros! 

Tomara que tenham um reflexivo dia do trabalhador.

Aliás, Afonso Guedes, nosso diqueiro e importante homem de TV, enviou rápida e inspiradora consulta sobre a nomenclatura dia do trabalho (veiculada pela globo) e dia do trabalhador. Qual seria a correta?

Explico: se temos dia do médico, dia do professor, dia do farmacêutico, dia do publicitário e outros tantos dias, nomeando a categoria, por que no caso no trabalhador há essa metonímia? Arrisco-me a afirmar que, mais uma vez, a questão ideológica define o uso, não é? Parece que o estado e as mídias ignoram seu significado histórico, relegando a segundo plano o caráter combativo e classista que a data deveria ter. Não se trata apenas de mais um feriado, ora!

Desde 1889 a Segunda Internacional Socialista decidiu, em Paris, homenagear os trabalhadores por suas lutas no evento de Chicago, envolvendo policiais e que acabou com tantas vidas.

No Brasil, a data começa a ser comemorada a partir de 1925.

Pois bem: ainda hoje, os interesses das corporações optam por afirmar que as nomenclaturas são equivalentes e que se pode empregar uma pela outra.

Não é verdade! A expressão dia do trabalho é oficialesca e representa a prevalência da ação (trabalho) em detrimento do sujeito que realiza esta ação (trabalhador). Esta perspectiva é positivista demais, gente! É óbvio, na confusão de nomenclatura, o conteúdo ideológico de esvaziamento do sentido histórico do termo trabalhadores.

Ui, cansei vocês!

Perdoem esta trabalhadora da educação que aproveita o espaço para protestar com tanta veemência, sim?

Grande abraço,

Edinalda

Os desafios para o Brasil atingir metas de qualidade na educação

Criado em 2006, com o objetivo de contribuir para que o Brasil garanta a todas as crianças e jovens o direito à educação básica de qualidade, o Todos Pela Educação traduziu esse objetivo em 5 metas, com prazo de cumprimento até 2022: toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola; toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos; todo aluno com aprendizado adequado à sua série; todo jovem com o ensino médio concluído até os 19 anos; e investimento em educação ampliado e bem gerido.
O movimento divulgou, recentemente, o relatório “De Olho nas Metas 2011”. O estudo é feito anualmente para o acompanhamento dos indicadores educacionais do país. De acordo com Priscila Fonseca da Cruz, diretora executiva do Todos pela Educação, a tendência é que o Brasil consiga cumprir a meta 1. Apesar de ainda termos 3,8 milhões de crianças e jovens fora das escolas, esse número representa apenas 10% do total. A situação mais preocupante é com a meta 2, que trata da alfabetização, e é fundamental para o cumprimento das metas 3 e 4.
Para mudar a realidade da educação no país, Priscila aposta no Plano Nacional da Educação (PNE), que traça metas e diretrizes para o setor até 2020. No entanto, se mostra preocupada com a demora em sua aprovação e com a maneira pela qual será colocado em prática. “Temos que cumprir o plano. Assim poderemos mudar a educação brasileira de patamar”, comentou, pedindo maior valorização do professor, melhor formação inicial e continuada para os docentes e maior tempo de permanência e exposição ao aprendizado para os alunos.
FOLHA DIRIGIDA — Recentemente, o Todos pela Educação divulgou um estudo de acompanhamento de metas estabelecidas pelo movimento para a Educação brasileira. Em quais metas a situação é mais preocupante e por quê?
Priscila Cruz — O que mais preocupa, no momento, é a número dois, que trata da alfabetização das crianças. Na meta 1, avançamos bastante, foi 8% na última década. O que temos é que, com essa melhora, chegamos bem perto de 100%, mas agora vem a parte mais complicada, que é colocar crianças e jovens difíceis de serem incorporados aos sistema. Essa será a nossa tarefa para os próximos 10 anos. Porém, com a aprovação da Emenda Constitucional 59, que tornou obrigatória a escolaridade de 4 a 17 anos, isso já está basicamente encaminhado, pelo menos legalmente. Como a meta 2 fala de alfabetização, a 3 e a 4, aprendizagem em cada série e conclusão na idade correta, respectivamente, dependem dela. Só poderemos cumpri-las quando tivermos todas as crianças plenamente alfabetizadas até os 8 anos de idade. O que verificamos pela prova ABC, que fizemos em parceria com o Inep, Fundação Cesgranrio e Instituto Paulo Montenegro/Ibope, é que apenas pouco mais da metade das crianças até 8 anos têm as competências de leitura e escrita consolidadas e 42,8% de Matemática. Então, o quadro é que logo no início da escolaridade já temos praticamente metade das crianças em condições muito pequenas de continuar a aprender nas séries seguintes. Temos 3,8 milhões de crianças e jovens fora da escola. Falando em números absolutos é muito, mas quando pensamos em porcentagem, temos 10% para atingirmos a meta 1. O que quero dizer, é que pelo menos tornando a escolaridade obrigatória dos 4 aos 17 anos, a tendência é que o país consiga chegar bem próximo de 100%. No entanto, uma coisa é a criança estar na escola, outra é aprender tudo que tem direito ao longo de sua formação, o que é um desafio bem mais complexo e difícil de ser atingido. Por isso, acho que a alfabetização é a meta mais crítica, porque se não conseguirmos atendê-la, não vamos cumprir as seguintes.
FOLHA DIRIGIDA — Nas poucas semanas em que está à frente do MEC, as ações e propostas anunciadas pelo ministro Aloizio Mercadante seguem na direção daquelas que, a seu ver, deveriam ser as prioridades para as políticas educacionais do ministério?
Priscila Cruz —Uma das primeiras políticas anunciadas na entrada dele foi o programa de Alfabetização na Idade Certa, que é uma ação importantíssima e necessária para que a gente possa garantir a alfabetização plena de todas as crianças até os 8 anos. Então, já é uma boa sinalização. É raro alguém não concordar com a necessidade de garantir a alfabetização das nossas crianças. Não existe muito debate para saber se deve ou não deve, é lógico que deve, fora outros consensos na educação. A tendência é sempre vermos um gestor público anunciando programas que prometem nos colocar no rumo certo. A questão central que deve motivar a sociedade civil, a imprensa e o país como um todo, é ser vigilante e fazer um trabalho de controle na implementação. Anunciar uma política e deixar que seja feita de forma incompleta continua impedindo que o país chegue aos resultados desejados.
FOLHA DIRIGIDA — Um dos gargalos para o avanço da qualidade da educação no Brasil, segundo especialistas, é a qualificação dos professores. O que precisaria ser feito para melhorar esta formação?
Priscila Cruz — Os professores constituem, como fator isolado, aquele que mais tem impacto na qualidade da educação e na aprendizagem de um aluno. Não dá para imaginarmos um cenário de crianças aprendendo sem trabalhar a formação dos professores. De fato, essa é uma das políticas mais necessárias e também a que mais precisa de atenção, principalmente do governo federal, já que pela divisão de atribuições na Constituição, a responsabilidade pelo ensino superior, onde acontece a formação do professor, é dele. No Brasil, a formação docente é muito generalista e dá pouca ênfase nas metodologias que garantem que o aluno vai aprender. Existe um levantamento que mostra que nas licenciaturas de todas as áreas, o peso dado para a Didática, a disciplina dentro da Pedagogia que dá os instrumentos e as técnicas que vão garantir que o aluno aprenda, é de 10% ou menos nos currículos. Os outros 90% estão em disciplinas que também são muito importantes, mas existe um desequilíbrio.
FOLHA DIRIGIDA — Um estudo recente do Todos pela Educação mostrou que a maior parte dos professores considera que a dificuldade de aprendizagem está relacionada à falta de interesse dos alunos e à falta de acompanhamento das famílias. Como a senhora vê esse posicionamento?
Priscila Cruz — Tem um lado bom e outro ruim nesse caso. A parte negativa, e até de certa forma esperada, é os professores atribuírem a outros a responsabilidade pela não aprendizagem. Isso é comum, não é exclusividade do setor educacional, vemos em toda a sociedade. As pessoas sempre acham que foi o outro que falhou. Então, isso deve ser considerado, mas é um fator negativo. A posição mais produtiva que poderia fazer com que avançássemos, seria a visão da parceria. Os professores junto com as famílias de mãos dadas fazendo com que o aluno aprenda. O lado positivo é o fato de verem que a família tem impacto na educação. A tarefa de engajar a família, mobilizá-la pelo estudo da criança, acolher nas escolas, tudo isso pode ter como ponto inicial a leitura da importância das famílias.
FOLHA DIRIGIDA — Os relatórios do Todos pela Educação têm mostrado que os alunos ainda têm muitas dificuldades do ponto de vista da aprendizagem, tanto em Português como em Matemática. Além da melhoria da formação dos professores, que políticas deveriam ser adotadas para fazer com que os alunos brasileiros aprendam mais e melhor?
Priscila Cruz — O desenvolvimento e a adoção de um currículo nacional, com a expectativa de aprendizagem para cada série; a melhoria da formação inicial e continuada dos professores; melhorar a carreira docente; atrair os melhores alunos do ensino médio para o magistério; ampliar o tempo de permanência e de exposição a aprendizagem dos estudantes. O Brasil tem como tempo obrigatório a partir de 4 horas. Seria muito importante ampliar o turno e fazer com que as crianças fiquem mais tempo na escola. Precisamos de um plano nacional de educação que realmente responda aos desafios da educação básica e, mais do que ter o plano, que seja implementado e suas metas cumpridas. Se o Brasil, nos próximos dez anos, cumprir as metas presentes no PNE, que está para ser aprovado no Congresso, a gente muda a educação de patamar.
FOLHA DIRIGIDA — Um dos principais pontos do Plano Nacional de Educação é referente ao financiamento. O máximo alcançado, até agora, ficou próximo de 8% do PIB. Esse parâmetro é suficiente ou deveria ser maior? E o que deveria ser feito para melhorar a qualidade desse gasto?
Priscila Cruz — Na verdade, o que foi negociado com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi 7,4% do PIB até 2014 e depois um aumento progressivo, a partir de uma avaliação que será feita. O dado concreto é que o Brasil investe 5,3% do PIB em educação. Em termos de porcentagem, não somos um dos que menos investe, estamos apenas um pouco abaixo da média dos países da OCDE, que antigamente eram chamados de desenvolvidos. Acontece que o Brasil tem uma população de muitos jovens, são 50 milhões de alunos. Além disso, temos um déficit educacional bem antigo e profundo. Temos que pagar as dívidas das gerações anteriores para uma população imensa. Quando a gente pega essa porcentagem do PIB e divide pela quantidade de estudantes, dá um gasto per capita muito baixo, um dos menores do mundo. Temos sim que elevar o investimento em educação e fazer isso com qualidade. Gastar mais sem qualidade não nos levará ao resultado que precisamos.
FOLHA DIRIGIDA — O PNE está em tramitação no Congresso sem previsão de ser aprovado. Essa demora, a seu ver, pode comprometer o cumprimento das metas, uma vez que estados e municípios geralmente se pautam nelas para também estabelecer seus próprios planos?
Priscila Cruz — Como houve uma reunião com o ministro da Fazenda recentemente, talvez o plano esteja na iminência de ser votado. Porém, o fato é que está demorando bastante. Há dois aspectos graves que podem comprometê-lo. O primeiro é fazer com que seja aprovado com pouca força. Na própria questão do financiamento, não chegou aos 10%, que era o pleito de alguns movimentos. Isso é muito ruim, porque ninguém tem motivação de cumprir um plano sem força. Temos que resgatar isso e, seja lá que valor que aparece no PIB, o fundamental é que todas as metas estratégicas sejam cumpridas. Se existe uma disposição do governo federal de aumentar o investimento progressivamente, isso não pode nos dar a desculpa de não cumprir o plano. Se avançarmos nas metas fundamentais, certamente ganharemos um argumento forte para pleitear maior porcentagem nos anos seguintes. Outro ponto, é que o atraso faz com que os planos estaduais e municipais também se atrasem, já que muitos esperam o plano nacional ser aprovado. O que posso dizer, é que os estados e municípios já poderiam começar a elaborar seus planos, porque as alterações, caso aconteçam, serão minúsculas e talvez nem tenham impacto no âmbito estadual ou municipal.
FOLHA DIRIGIDA — Após a aprovação do PNE, o que será preciso fazer, e que não foi feito em relação ao plano aprovado em 2001, para que as metas sejam efetivamente cumpridas pelo país?
Priscila Cruz — Primeiro, é não deixar o plano ser esquecido após a aprovação. Uma coisa muito comum no Brasil é que muita energia é colocada no planejamento, no campo das ideias, na hora de se pensar um projeto para a educação do país e, após ficar pronto, todos voltam para suas vidas normais e o plano fica na gaveta. Ele precisa ser sempre uma referência para as políticas e programas criados nos próximos anos, seja governo, sociedade, iniciativa privada, Legislativo, Executivo ou sistema de justiça. Em todas as frentes, o PNE deve ser a agenda que conduzirá as ações. Além disso, é importante que seja bem implementado. Não adianta termos um plano maravilhoso, que pode mudar a realidade da educação brasileira, e não ser aplicado como deveria. Deve ser realizado de forma integral e plena. As metas devem guiar as ações de todos de forma competente, garantindo que todas as crianças estejam na escola e aprendendo.
FOLHA DIRIGIDA — Uma pesquisa recente divulgada pela Firjan mostra que 83% dos municípios brasileiros dependem de recursos do governo federal para manter seus gastos. E é justamente na esfera municipal que está a responsabilidade pelo ensino fundamental, que possui cerca de 50% dos alunos da educação básica. Essa distribuição de responsabilidades deveria ser revista?
Priscila Cruz — Estados e municípios respondem pela larga maioria das matrículas de educação básica. Ambos têm dificuldades no cumprimento de suas metas, talvez até mais os municípios. O governo federal tem uma atribuição importantíssima, que é suplementar com recursos e apoio técnico estados e municípios que precisem. Quando falamos de piso nacional do magistério ou outras políticas que demandam recursos que esses entes federativos não conseguem suportar, a União deveria complementar. Outro ponto é o regime de colaboração. Existem as responsabilidades de cada um na Constituição, mas ainda sim há muita confusão, uma zona cinzenta. Às vezes temos excesso de responsabilidade e, em outros casos, não temos ninguém. Precisamos ajustar essa questão e elaborar uma normatização mais clara. Até porque, estados e municípios dizem que não têm como arcar com o piso nacional do magistério.
FOLHA DIRIGIDA — Além do piso, o que precisa ser feito para valorizar os professores? A senhora é favorável, por exemplo, a bonificações para cumprimento de metas?
Priscila Cruz — A carreira precisa ser mais atrativa. Uma das ideias é aumentar o salário inicial. No lugar de deixar para subir apenas no final da carreira, poderíamos inverter essa situação e colocar um peso maior no começo da jornada de trabalho. Assim, os melhores alunos do ensino médio ficariam mais atraídos. E também existe a questão da valorização perante a sociedade. Isso, não necessariamente, passa pela remuneração. É apenas a importância que as pessoas dão aos docentes. Todo mundo precisa colocar sua dose de colaboração para que a sociedade, cada vez, mais se conscientize do papel do professor, inclusive ele próprio, se abrindo para o diálogo com as famílias. A bonificação por metas é bem difícil de ser implementada. Podemos falar de outra forma: remuneração variável por resultados. E não necessariamente por resultados individuais do professor, pois a aprendizagem do aluno sempre é um acumulado de tudo que passou em sua trajetória escolar. O somos favoráveis a uma remuneração variável de acordo com o resultado de toda escola. Assim, valorizaríamos o trabalho de toda equipe. Acredito que essa tendência deve evoluir nos próximos anos.
Fonte: Folha Dirigida

O gargalo do perfil docente

 
Enseja preocupação o levantamento da ONG Todos pela Educação sobre o número de docentes com curso superior no Brasil e no Rio Grande do Sul. Ainda que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) tolere formação de magistério em nível médio para os que trabalham com Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental, o recomendado pela mesma lei é a formação em curso superior de licenciatura. Ora, tanto o país quanto o Estado estão distantes do cumprimento dessa meta.
Em todo o Brasil, praticamente metade dos professores (49,9%) do segundo ciclo do Ensino Fundamental e do Ensino Médio das escolas da zona rural não tem a formação mínima em licenciatura recomendada pela LDB. No caso gaúcho, o principal foco de preocupação também reside no elevado número de professores com as mesmas atribuições a apresentar formação insuficiente nas zonas rurais.
O Plano Nacional de Educação estabelece 2020 como ano-limite para que os professores da Educação Básica tenham obrigatoriamente formação em licenciatura. Até aquela data, esses profissionais poderão exercer suas funções tendo concluído apenas o magistério em nível médio. Não se trata de uma meta irrealizável, especialmente se forem levadas em conta as facilidades disponibilizadas hoje pelo Estado e por boa parte dos municípios para que os professores possam cursar a universidade.
Os dados, obtidos com base no Censo Escolar de 2010 – o mais recente em poder do governo federal –, reforçam a ideia de que será preciso investir fortemente na qualificação de professores, especialmente nas áreas rurais, nos próximos anos. Deficiências na infraestrutura das escolas e na definição de linhas pedagógicas são outros desafios a serem enfrentados nos próximos anos no âmbito do Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo), do Ministério da Educação (MEC). Lançado no mês passado, esse plano tem por objetivo reverter as carências do Brasil rural, que dispõe hoje de 76 mil escolas e 6,2 milhões de alunos.
Fonte: Zero Hora (RS)

No vale da eletrônica, alunos têm noção de robótica a partir de 6 anos

Estudantes do ensino público de Santa Rita do Sapucaí, pequena cidade a 400 km de Belo Horizonte, começam a ter aulas de noções de robótica logo aos seis anos de idade. A educação para a tecnologia faz parte de um projeto para desenvolver o talento dos jovens que vivem na região conhecida como Vale da Eletrônica, onde um quarto da população atua na indústria de produtos eletrônicos. Ali funcionam 142 empresas, que geram 10 mil empregos diretos, produzem 13,7 mil itens eletroeletrônicos e que faturam R$ 1,7 bilhão por ano.
A educação é uma das principais apostas das empresas do município para formar mão-de-obra qualificada para trabalhar nas empresas da região, segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica (Sindvel), Roberto de Souza Pinto. “As empresas nascem da estrutura do ser humano, pois sem ele, quem vai mover as máquinas? Acreditamos que devemos investir e valorizar o ser humano para crescer tecnologicamente”, disse.
Santa Rita do Sapucaí se destaca nacionalmente por ser o único centro de indústrias de tecnologia a produzir urnas eletrônicas, tokens usados por bancos e transmissores e componentes eletrônicos para a transmissão de sinal de TV digital. O incentivo para o ensino de robótica partiu da empresa “AMEducação”, que representa o instituto Lego Education no Sul de Minas e idealiza os torneios de robótica.
Além da educação, as empresas do vale também incentivam a oferta de oportunidades para os jovens que trabalham com tecnologia na região, chegando a formar incubadoras de projetos novos.
“O jovem que acaba de se formar não possui recursos. Ele foi dependente dos pais durante muitos anos e sai sem nada da universidade. Nestes casos, muitos dos jovens possuem ideias brilhantes e podem ser muito úteis, mas não possuem dinheiro para investir”, explica Pinto.
Nestes casos, o recém-formado que tem uma ideia de produto se reúne com o Sindvel para apresentar um projeto. Caso ele seja aprovado, o idealizador é contratado e o produto oferecido é montado para ser comercializado.
A Hitachi, multinacional japonesa, que fechou um acordo para comprar parte da Linear, a mais antiga empresa do Vale da Eletrônica, aproveitou toda a mão de obra que já estava na empresa, diz o Sindvel. “Não houve demissões. Além de adquirir 50% da empresa, a Hitachi também investiu no cérebro que já movimentava aquela indústria”, explica Pinto.

Capacitação começa cedo
Em 2012, dez estudantes entre 10 a 15 anos da Escola Estadual Dr. Luiz Pinto de Almeida foram selecionados para o torneio internacional de robótica “First Lego League”, que será disputado entre 3 e 6 de maio na Flórida, nos Estados Unidos. O grupo X-Factor teve que concorrer com 45 equipes de nove estados brasileiros e foi a única de Minas Gerais a se classificar para o torneio.
Os alunos admitem que não conheciam muito a robótica quando integraram o projeto. “Quando convidaram os alunos de sala em sala achei uma oportunidade incrível. Eu não tinha muita noção, mas durante o processo de montagem e nas competições tudo ficou mais claro”, conta a integrante do X-Factor Laíza Costa Vicentini, de 13 Anos.
Na competição , os robôs construídos pelas equipes precisam concluir 15 tarefas que devem ser executadas em um prazo de dois minutos e meio em cima de uma plataforma (veja demonstração ao lado). Mais de 60 equipes de todo o mundo devem participar da competição.
O diretor da AMEducação, Nilton Sérgio Joaquim, explica que o torneio Lego não visa mostrar quem é melhor. “Essa competição surgiu após uma pesquisa revelar que os jovens não estavam se interessando por cursos de exatas, como a engenharia por exemplo. O intuito é desmistificar as ciências exatas para os jovens por meio da robótica”, afirma. 
Incubadoras
As empresas de Santa Rita do Sapucaí oferecem oportunidades de crescimento para os funcionários. Elas funcionam como incubadoras, que são instituições que auxiliam no desenvolvimento de micro e pequenas empresas nascentes e em operação, que buscam a modernização de suas atividades para transformar ideias em produtos, processos e serviços.
Essas novas empresas recebem suporte gerencial, administrativo e mercadológico, além de apoio técnico para o desenvolvimento do produto. Com isso, o empreendimento pode ser acompanhado desde a fase de planejamento até a consolidação de atividades com a consultoria de especialistas.
Em uma empresa que produz alarmes e equipamentos de segurança em Santa Rita do Sapucaí, o diretor Fernando Barbosa Mota explica que já deu apoio a funcionários que demonstraram ter uma visão mais ampla de negócio.
“Tive uma colaboradora que sempre teve um desenvolvimento muito bom aqui dentro. Eu enxerguei que ela tinha capacidade de ter o próprio negócio dela. Hoje, ela tem uma empresa de montagem com 50 pessoas que oferece serviços para a minha empresa”, diz Mota.
O diretor também conta que lá os funcionários recebem outro nome e são chamados de colaboradores. “Aqui nós mostramos para as pessoas que elas são peças importantes e de que nada opera sozinho, portanto precisamos da colaboração delas”, explica.
Uma das colaboradoras mais antigas da empresa, Juliane Vilela Toledo, de 34 anos, trabalha na área de documentação e se sente bem onde está. “O ambiente aqui é muito bom, todo mundo é amigo e os diretores se aproximam da gente, nos dão oportunidades. É como uma grande família”, conta.
Há oito anos na empresa, Rosiene Marcolino Silva, de 36 anos, começou como auxiliar de produção e hoje é supervisora. “Aqui nós podemos crescer e isso nos trás muita segurança”, diz.
A empresa foi apontada com uma das 100 melhores do Brasil para se trabalhar conforme reportagem da Revista Época. Por ano, duas mil pessoas de todo o país visitam a empresa para receber treinamento. 

Competição em igualdade
Em 2011, Santa Rita do Sapucaí exportou produtos para 46 países. Entre os itens estão aparelhos telefônicos, componentes eletrônicos, aparelhos de transmissão e recepção de TV digital e analógica, sensores de iluminação e tokens.
De acordo com o presidente do Sindvel, o mito de que os produtos fabricados no Brasil são de qualidade inferior foi vencido. Para ele, o país tem plenas condições de ganhar o mercado internacional.
"Essa história de que o que é produzido aqui é ruim não passa de uma persistência de cultura. Hoje temos empreendedores excepcionais na área da eletrônica no Brasil e nós crescemos em exportação dia a dia. Se nossos produtos fossem ruins, países como EUA e Japão não iriam importar da gente", conclui Pinto.
Fonte: G1

terça-feira, 1 de maio de 2012

Professor não pode concorrer com a internet

Imagine, em um mundo sem internet, o dia em que professores são avisados que dali para frente uma ferramenta de pesquisa permitirá aos seus alunos ler, assistir, ouvir e discutir sobre qualquer assunto. Qual seria a reação dos educadores? Para especialistas, há muito motivo para comemorar: a chance de obter êxito no aprendizado aumenta. Na vida real, a recepção não foi bem assim. A falta de adaptação do professor às novas tecnologias e ao aluno influenciado por elas são tema do segundo dia da série especial do iG sobre os problemas na formação do docente.
Incluída ou não na aula, presente ou não na escola, a internet faz parte da rotina dos alunos. Em 2008, quando apenas 23% dos lares estavam conectados segundo o Ibope, o instituto já apontava que 60% dos estudantes tinham acesso à rede de algum modo. Em pesquisa realizada nas escolas estaduais do Rio de Janeiro em 2011, 92% disseram estar online ao menos uma vez ao dia.
“O professor pode escolher como tratar a internet, mas não pode ignorá-la”, diz o pesquisador emérito de Ciências da Educação da Universidade de Paris 8 e visitante na Universidade Federal do Sergipe, Bernard Charlot. Ele vê duas possibilidades para o educador: fazer o que a máquina não sabe ou ser substituído.
“Ninguém pode concorrer com o Google em termos de informação. O professor que ia à frente da sala apresentar um catálogo vai desaparecer em 20 anos e ser substituído por um monitor”, afirma sem titubear, emendando um alento: “Por outro lado, o professor que ensina a pesquisar, organizar, validar, resolver problemas, questionar e entender o sentido do mundo é cada vez mais necessário.”
O pesquisador defende que o aparente problema de falta de entrosamento com a tecnologia na verdade é a lente de aumento que a internet colocou sobre a falta de formação para a docência. “Não é que o professor não sabe ensinar a pesquisar na internet, é que ele não sabe ensinar a pesquisar. Muitas vezes é mais simples ainda: o professor não sabe como ensinar.”
Para ele, a culpa não é do profissional, mas do sistema engessado que além de não formá-lo não o deixa fazer diferente. “Não faz sentido começar um trabalho na internet e, depois de 50 minutos, dizer: a gente continua semana que vem. Assim como cada professor cuidar de uma disciplina, como se os assuntos não fossem relacionados, ou tratar de temas sem mostrar na prática para que servem na sociedade tornam a escola sem sentido.”
A doutora em linguística e especialista no impacto da tecnologia na aprendizagem Betina von Staa também culpa principalmente o sistema de ensino pela falta de aceitação da tecnologia. “Muitos professores não aceitam trabalhos digitados apenas para evitar cópias. A preocupação é maior com o controle de notas do que com as possibilidades de aprendizado”, lamenta.
Na opinião dela, o aluno precisa de orientação para procurar informações confiáveis e questionar dados encontrados na internet. “Todas as pesquisas apontam que a tecnologia traz benefícios, porém desde que venha com formação dos professores para dar apoio.”
O Colégio Ari de Sá, em Fortaleza, é um exemplo de exceção na introdução da tecnologia na sala de aula. Além de equipamentos - lousas digitais, computadores e até tablets para os alunos que preferirem o equipamento aos livros - a escola tem formação para os professores diariamente e no contexto das aulas. O coordenador de informática educativa, Alex Jacó França, passa em cada sala tirando dúvidas dos professores e dá dicas de como incluir ferramentas online em cada tópico.
"Muitos temas que passariam sem grande interesse aos alunos acabam ganhando vídeos e experimentos que os marcam. Quanto mais o professor conhece, maior a liberdade que dá ao aluno no formato de suas pesquisas e melhor o aprendizado", garante o especialista. Para ele, mesmo nos casos em que as escolas não têm equipamento, o conhecimento do professor para incentivar o uso de tecnologias e a abertura para deixar os alunos irem além dos livros faz a diferença.
Durante fórum sobre tecnologia e educação promovido pela Blackboard no último dia 12, em São Paulo, educadores estrangeiros sustentaram opinião parecida. A diretora de avaliação da Universidad Cooperativa de Colômbia, Maritza Randon Rangel, afirma que a democratização do acesso à rede dá oportunidade para que mesmo escolas rurais e afastadas tenham desempenho equivalente às que estão mais próximas de recursos culturais e financeiros. “Tivemos êxito com isso na Colômbia, mas além das máquinas é preciso uma equipe com objetivos claros.”
Já a pedagoga Patrícia Patrício, mestre em Formação de Professores pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora do livro “São Deuses os Professores?”, defende que os educadores de sucesso conseguem êxito com ou sem ajuda da escola. “Em geral profissionais que se destacam fazem isso, apesar da escola”, conta.
É o caso de professores premiados em todas as edições das Olímpiadas Brasileiras de Matemática, como Antonio Cardoso do Amaral, de Cocal dos Alves, no Piauí, e Maria Botelho, de Uberlândia, em Minas Gerais. Ambos não têm formação ou estrutura tecnológica acima da média da rede pública nas escolas, mas incentivam os alunos a usá-la em casa e valorizam dúvidas e exercícios trazidos dentro ou fora do contexto da aula. “Às vezes chego em casa e um aluno me deixou uma dúvida no Facebook, eu adoro, significa que eles estão indo além da aula”, diz Botelho.
Fonte: iG

Professores não são preparados para ensinar

Um professor com poucas oportunidades de aprender a dar aula é como um médico que não sabe tratar do paciente ou um advogado que não conhece os caminhos para defender o réu. Mas o que parece tão contraditório é uma realidade no caso dos educadores. O problema é comprovado por pesquisas, práticas e maus resultados que são tema de série que o iG Educação publica de hoje até quinta-feira.
Em todas as etapas de formação, os docentes enfrentam restrições ao aprendizado do próprio ofício. A universidade reserva a menor parcela do curso a lições de como ensinar, a bibliografia sobre o assunto é desproporcional à demanda e o tempo de aprendizado dentro da escola – apesar de previsto em lei – é desviado para assuntos burocráticos.
Para piorar, o modelo pelo qual os próprios professores aprenderam e que muitos replicam há décadas empaca diante de uma geração moldada pela facilidade e rapidez de resposta da internet. “A sociedade não precisa mais de alguém que traga a informação. Isso o computador pode fazer. No entanto, a sociedade precisa cada vez mais de um mestre que ensine a pensar, a resolver problemas, a produzir conhecimento. Só que dificilmente o educador sabe como fazer isso”, resume o professor emérito em Educação na Universidade de Paris 8 e visitante na Universidade Federal de Sergipe, Bernard Charlot.
Na opinião dele, os problemas de formação são potencializados pela tecnologia a que os alunos têm acesso, mas continuam sendo os mesmos. “A questão não é se o professor sabe promover o aprendizado naquele ambiente, mas se ele tem repertório para ensinar em vez de reproduzir informação”, diz.
Pesquisas mostram que o problema começa enquanto o futuro mestre ainda é o aluno. A Fundação Carlos Chagas analisou detalhadamente os currículos de 94 faculdades de Letras, Matemática e Ciências Biológicas em todas as regiões do País por dois anos e concluiu que o “como ensinar” está longe de ser o foco dos cursos.
Em Letras, apenas 5,8% das aulas focavam em “didáticas, métodos e práticas de ensino”, em Matemática, 8% e, em Biológicas, 10%. Todo o restante do curso forma especialistas em cada área, explica o sistema educacional, expõe fundamentos teóricos ou mesmo apresenta “outros saberes”. A introdução de temas tecnológicos apareceu em apenas 0,2% dos currículos.
Os dados da pesquisa, publicada em 2008, até agora não geraram mudanças sistemáticas. Dentro de limites genéricos como “fundamentos teóricos” e “conhecimentos específicos”, as universidades têm autonomia sobre os conteúdos dos cursos e, como simples orientador, os governos que tomam iniciativas têm resultado tímido na mudança dos currículos de faculdades para professores.
No Espírito Santo, a gerente de formação do magistério da Secretaria de Educação, Tania Paz, chamou 33 faculdades para debater os resultados e propor mudanças. Só 23 aceitaram. Ao longo de um ano foram nove encontros em que a Fundação Carlos Chagas participou, mas ao final não é possível dizer se haverá alteração prática. “Mostramos para eles nossas necessidades em sala, mas dentro das instituições a decisão é dos coordenadores de curso”, afirma a gerente.
Para ela, a dificuldade na formação é a base da crise educacional que o País enfrenta. “Fizemos uma avaliação diagnóstica do que era preciso melhorar no sistema a partir das dificuldades dos alunos e a conclusão é sempre a mesma: o professor”, afirma, ponderando que o profissional é, ao mesmo tempo, vítima e reprodutor do problema. "Muitos já escolhem a profissão por não conseguir aprovação nas carreiras mais concorridas por conta de uma educação ruim que tiveram e vão perpetuar enquanto não conseguirmos buscar formas de compensação."
O Ministério da Educação também encontrou um problema ainda anterior aos currículos das faculdades: a falta de livros sobre didática. Um edital para compra de material aberto de 2008 a 2011 resultou em apenas 100 obras aprovadas, segundo o então ministro da Educação, Fernando Haddad. “Mundo afora, você vai ver que chega a centenas de milhares de títulos. No Brasil, se uma pessoa iluminada quiser fazer mudanças num curso de licenciatura, vai ter de forjar o próprio material”, comentou às vésperas de deixar o cargo, em janeiro.
Na época, ele dizia que a colaboração do governo federal seria montar uma prova para professor que seria baseada em didática e acabaria incentivando a mudança nos cursos. "Hoje, 70% dos concursos públicos para admitir educadores são feito de questões jurídicas. Está mais para teste da OAB do que docência", comentava. Até o momento, no entanto, não há anúncio oficial da avaliação anunciada há dois anos.
Fonte: iG

Saúde e educação no Brasil

Saúde e Educação são, sem sombra de dúvida, o alicerce de uma grande nação. Um povo com acesso ao conhecimento e à reciclagem, com assistência adequada e bem-estar, é a premissa para a construção de um presente de oportunidades e de um futuro cada vez mais alvissareiro. A saúde e a Educação representam as bases para o crescimento de empresas, expansão de serviços e do segmento industrial, da agricultura e de todo o chamado livre mercado. Tem-se, assim, cidadãos/trabalhadores ainda mais qualificados e mais comprometidos, gestores mais esclarecidos e políticos mais fiscalizados. Dessa forma, também é semeado o terreno para um círculo virtuoso de transferência de renda, de crescimento econômico sustentável e de qualidade de vida para todos.
Parece simples. Entretanto, no Brasil, a falta de visão e de seriedade nos empurra para a mão inversa. Milhões de estudantes saem do Ensino Fundamental sem saber escrever. Por consequência, formam-se sem capacitação adequada, entram e saem de faculdades sem o mínimo de conhecimento necessário para exercer sua atividade profissional. Isso ocorre com parte expressiva dos advogados, jornalistas, economistas, enfim, em todas as áreas do conhecimento. Faculdades viraram máquinas de vender diplomas. A medicina brasileira é outra área que padece deste mal. Com a abertura indiscriminada de cursos médicos, colocamos na linha de frente do atendimento graduados que estão a um passo de não saber distinguir uma gripe de um resfriado.
Em 2011, avaliação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo com estudantes do sexto ano atestou que quase 50% deles não sabem interpretar radiografia ou fazer diagnóstico após receber informações dos pacientes. Também cerca de metade administraria tratamento impreciso para infecção na garganta, meningite e sífilis.
O baixo percentual de acertos em campos essenciais da Medicina, como Saúde Pública (49% de acertos), Obstetrícia (54,1%), Clínica Médica (56,5%) e Pediatria (59,3%) é alarmante. Aliás, os índices de reprovação desde que a avaliação foi criada, em 2007, confirmam que muitos novos médicos não estão preparados para exercer a profissão, representando risco à saúde e à vida dos cidadãos.
Pior do que o panorama atual é o que se desenha para o futuro próximo. Em vez de investir em qualidade, fiscalizando e fechando más Escolas, estancando a sangria da abertura de novos cursos e premiando a boa formação, a opção foi pelo completo caos. Notícia estampada no portal do Ministério da Educação acaba com qualquer dúvida sobre o assunto: "O MEC pretende aumentar o número de vagas nas instituições federais que já possuem cursos de medicina e criar novas faculdades de medicina em universidades que ainda não oferecem o curso".
É bom destacar que o Brasil possui hoje 185 Escolas médicas. No mundo, apenas a Índia, com 272 cursos e uma população de 1,2 bilhão de pessoas (seis vezes maior que a brasileira) possui mais. Os números evidenciam claramente que nosso problema não é de falta de médicos. Carecemos, sim, de boa distribuição geográfica e de base para o profissional se fixar em periferias das grandes cidades, em áreas de difícil acesso por todo o país. Não adianta sinalizar apenas com salários altos. O que precisamos é de uma carreira bem estruturada, de um plano de cargos que estimule a progressão e de ferramentas para a reciclagem permanente. Somente assim será possível seguir em frente com qualidade.
Antonio Carlos Lopes, Presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, in: Diário do Comércio (MG)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ler faz crescer

Ao contrário de anos anteriores, o debate sobre a Educação formal, do ensino, e, especialmente da qualidade tem tido espaço na mídia, com destaque na imprensa. Todos apontam as causas da baixa Escolaridade, os efeitos da má qualidade e os benefícios trazidos pelo bom ensino, mas o problema perdura. Nem sequer o Brasil consegue extinguir o analfabetismo. A má qualidade e a baixa instrução do brasileiro, apesar de alcançar um bom espaço nos meios de comunicação, ainda deveria ter maior abordagem na imprensa e muito mais na televisão.
Todo dia o Jornal Nacional fala dos índices das bolsas de valores, dos mercados e das economias mundiais, mas passa semanas sem falar de Educação, que poderia ter definido como critério falar ao menos uma vez por semana, regra a ser seguida por todos os programas de televisão e de rádio.
Tem aumentado o debate sobre o tema, e isso parece trazer uma certa acomodação às autoridades e à sociedade em tentar solucionar o problema de uma vez por todas. Mas, dentro da amplitude que é o tema Educação, a leitura sofre de um descaso maior, que traz como resultado o pouco hábito de leitura ao brasileiro, em comparação aos países desenvolvidos. Pesquisa recente do Ibope mostrou a diminuição da leitura de livros em 2011, comparado com o ano de 2010, com uma piora do que já era ruim. De acordo com a pesquisa a redução da leitura foi medida até entre crianças e adolescentes, que leem por dever Escolar. Em 2011, crianças com idades entre 5 e 10 anos leram 5,4 livros, ante 6,9 registrados no levantamento de 2007. O mesmo ocorreu entre os pré-adolescentes de 11 a 13 anos (6,9 ante 8,5) e entre adolescente de 14 a 17 (5,9 ante 6,6 livros).
Para estimular a leitura, uma das boas iniciativas do governo federal foi aprovar a Lei 12.244 em 2010 com previsão obrigatória de uma biblioteca em toda Escola. Como parte dos defeitos que fazem perdurar os problemas, a lei é frouxa ao permitir que essa obrigação seja cumprida no prazo máximo de 10 anos.
Apesar de serem poucas as iniciativas oficiais de incentivo à leitura, o problema se agrava pela omissão da iniciativa privada, por não apresentar nenhuma ação incentivadora. O Banco Itaú se torna uma ilha de exceção nesse mar de omissão. Por ano, o banco vem fornecendo uma coleção de 3 a 4 livros infantis gratuitamente. Os livros são entregues no endereço fornecido pelo solicitante, já com todas as despesas de correios pagas. O objetivo desse texto é exatamente levar expandir o conhecimento dessa medida, pois falta uma divulgação mais ampla. Para fazer o pedido, gratuitamente, basta acessar o site que dá título a este texto: www.lerfazcrescer.com.br e clicar sobre o ícone “peça sua coleção”. Como diz uma frase no mesmo site, a cada livro, o Brasil inteiro vira uma página.
Pedro Cardoso da Costa, Bacharel em direito, in: Folha de Boa Vista (RR)