quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Busca na escola

Programas de transferência de renda condicionada, o nome genérico do Bolsa Família, têm se disseminado no mundo, em particular na América Latina. Esses programas possuem algumas características comuns como a concessão de benefícios monetários diretos aos mais pobres dos pobres. Todas as avaliações nacionais e internacionais que conseguem enxergar e isolar os detalhes microeconômicos são unânimes em apontar esse tipo de transferência como aquela com maior capacidade de chegar naqueles com piores condições de vida. No aspecto macro, a desigualdade de renda tem caído de maneira consistente no continente latino-americano e no Brasil nos últimos dez anos, coincidindo com a difusão desses programas.
Outro atributo é a exigência de contrapartidas às famílias beneficiadas, associadas ao investimento no seu próprio futuro como matrícula e frequência escolares, vacinação das crianças e exames pré-natais, entre outras. Como as condicionalidades estão associadas a mais benefícios às crianças, que são o segmento mais pobre da sociedade, o olhar na riqueza futura se coaduna com a redução da pobreza corrente.
Uma característica do caso brasileiro é a divisão de trabalho entre entes federativos. Enquanto o governo federal é responsável pelo financiamento do programa e pela escolha de beneficiários, no âmbito dos municípios, a assistência social é responsável pela coleta de informações do Cadastro Social Único ao passo que a educação e a saúde são responsáveis pelo acompanhamento do cumprimento das condicionalidades.
Outra vantagem de programas como o Bolsa Família é fornecer infraestrutura para estratégias locais de alta escala operacional. Alguns desses programas, como o Família Carioca na cidade do Rio, resolveram financiar ações locais complementares às do Bolsa Família utilizando a estrutura do Cadastro Único Federal.
Há ainda o acesso preferencial das mães como as principais receptoras dos benefícios no bojo das famílias. Outros programas como o "Minha Casa, Minha Vida" dão preferência às mães na titulação da propriedade. Intuitivamente, a aposta é que elas cuidam melhor dos filhos que eles. Em 91% dos casos, os titulares do cartão do Bolsa Família são mulheres - no caso do Família Carioca esta estatística chega a 96% dos casos.
O Bolsa Família e o Família Carioca repassam os recursos às mães. Mas, e quando as crianças pobres não moram com as suas respectivas mães? O ponto central deste artigo é propor caminhos alternativos para que o programa chegue mais nas crianças mais pobres. Trabalhamos com dados do Família Carioca e da rede municipal de educação da cidade do Rio de Janeiro, que contempla 650 mil alunos, a maior rede da América Latina.
Os dados mostram que as crianças mais pobres não só pela falta de renda, mas também pela carência de ativos familiares (educação dos pais, condições de moradia, acesso a serviços públicos, trabalho etc) estão mais presentes no Família Carioca. Por exemplo, filhos de mulheres com pelo menos o segundo grau incompleto têm 24% menos chances de estar no programa vis a vis os demais com outras características observáveis equivalentes. Ou ainda em comparação similar, estudantes com deficiência, aqueles com problemas de saúde ou aqueles sem registro de pai na certidão de nascimento tem 8,1%, 2,1% e 10,4% respectivamente, mais chances de estar no programa.
Estatísticas ligadas às características dos pais são bem menos importantes na determinação do desempenho escolar das crianças, ou de acesso ao programa. Até porque metade dos alunos não mora com o pai, daí o acerto do programa focar nas mães como mecanismo para fazer o dinheiro chegar as crianças. Entretanto, 20,2% dos alunos com Bolsa não moram com a mãe sendo este número maior que os 15% para aqueles não contemplados no Família Carioca.
Crianças com mães ausentes são mais pobres. Esta é a única exceção do programa que tem sua bússola apontada para as crianças mais pobres. Nos exercícios controlados, crianças órfãs de mãe tem 25% menos chances de serem beneficiadas pela ação de combate a pobreza. Alunos sob a responsabilidade de outra pessoa, que não a mãe, têm 17,3% menos chances de acessar o programa. Note que esses dois efeitos são cumulativos entre si. Ou seja, apesar de estudantes que não morem com a mãe serem mais pobres, eles tem menos probabilidades de chegar ao programa. Resultados semelhantes são encontrados para o Bolsa Família na cidade do Rio de Janeiro.
Nossa conjectura é que programas como o Família Carioca e o Bolsa Família buscam fazer os recursos chegarem aos estudantes mais pobres dos pobres por meio de suas mães, mas esses programas precisam ser adaptados quando a criança não mora com a mãe. Pois o melhor atalho para o futuro não está presente neste caso.
Nossa proposta concreta é a criação de um programa municipal de busca ativa na escola de crianças necessitadas que não moram com as mães. Isso corresponde a um universo de pouco mais de 100 mil alunos do município do Rio. A ação de inclusão no cadastro social é simples operacionalmente até porque essas crianças já fazem parte das ações empreendidas pela rede municipal de educação.
Marcelo Côrtes Neri, professor e economista, in: Valor Econômico (SP)

Por que o Brasil está no 88º lugar no ranking mundial da Educação?

Os problemas da educação brasileira extrapolam os limites da sala de aula. O desempenho pífio revelado em avaliações internacionais se deve a uma combinação de falhas de educadores, governantes e famílias, na opinião de especialistas. Essas deficiências incluem erros de gestão, falta de recursos e pouca cobrança social por resultados que façam jus ao atual peso econômico e político do Brasil.
O desafio de alcançar um ensino de qualidade foi eleito o tema da nova campanha institucional do Grupo RBS, deflagrada na terça-feira sob o slogan A Educação Precisa de Respostas. Para investigar quais são os principais nós que comprometem a aprendizagem no país e descobrir como desatá-los, uma série de reportagens em rádios, tevês e jornais vai responder a questionamentos concretos sobre o atual cenário da educação nacional.
A primeira dessas perguntas é como pode um país que alcançou a sexta posição entre as maiores economias do planeta ostentar um constrangedor 88º lugar em um ranking mundial publicado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no ano passado. As respostas, oferecidas por especialistas nacionais na área, resumem os principais entraves ao avanço educacional brasileiro.
Superados estes obstáculos, o país poderia experimentar nos próximos anos um acréscimo de qualidade significativo nas escolas e vencer um atraso histórico.
— Temos de levar em conta que começamos a nos preocupar com educação com quatro, cinco séculos de atraso em relação a outros países. É impossível recuperar isso do dia para a noite, mas temos de investir melhor para não perdermos mais tempo — observa o economista Claudio de Moura Castro.
Confira, a seguir, alguns dos principais empecilhos ao salto educacional brasileiro.

Gestão ineficiente
Especialistas em educação sustentam que não basta apenas despejar mais dinheiro no sistema educacional brasileiro. Outra disciplina em que o país encontra dificuldades é como aplicar bem os recursos disponíveis — que este ano devem somar R$ 114 bilhões.
— Há mau gerenciamento, e não é porque as pessoas são incompetentes. As estruturas são viciadas por clientelismo e corporativismo. Há nomeações políticas de diretores, em muitos lugares há dois professores para cada classe, tem muita gente que não trabalha. É uma cultura gerencial difícil de desmontar — avalia o presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista Oliveira.

Desprestígio do Magistério
Falhas na gestão do ensino explicam, em parte, a dificuldade para desatar outro nó da educação brasileira: a baixa remuneração dos professores — tanto na rede pública quanto na particular. Os baixos salários têm duplo impacto: além de oferecerem pouco estímulo aos profissionais em ação, afugentam da carreira muitos dos melhores alunos.
– A baixa aprendizagem decorre da ausência de professores com qualidade. Tornar o magistério um objeto de desejo dos jovens é fundamental. Nos países com boa educação, ser professor tem bom retorno financeiro e reconhecimento social — avalia Mozart Neves Ramos, conselheiro do movimento Todos pela Educação.
No Painel RBS realizado na terça, o especialista observou que, enquanto um professor ganha, em média, R$ 1,8 mil, outro profissional com titulação equivalente recebe R$ 2,8 mil. Países que estão no topo da educação mundial, como Coreia do Sul e Finlândia, pagam bem seus professores, o que lhes permite atrair mais interessados e selecionar os melhores.

Má formação dos professores
Para especialistas, o modelo de treinamento dos mestres brasileiros é uma das razões principais para o desempenho pífio dos estudantes nas avaliações nacionais e internacionais. A principal crítica é de que os cursos não preparam adequadamente.
— Em primeiro lugar, para se formar um bom professor, você tem de aprender o conteúdo a ser ensinado. Em segundo, você tem de aprender a dar aula. O terceiro é tudo mais, ou seja, cultura, ideologia, identidade do professor, antropologia e sociologia da educação, legislação, tudo o que é periférico. No Brasil, as faculdades só ensinam o “tudo mais”, o periférico. Faltam os temas centrais — diz o economista e especialista em educação Claudio de Moura Castro.

Baixo investimento na Educação Básica
Um dos problemas que o país precisa resolver para elevar a qualidade do seu ensino é de matemática. O Brasil aplica, em média, um valor muito baixo para cada estudante da educação básica. O gasto público, em 2010, era de apenas R$ 3,5 mil ao longo de um ano. Isso representa todo o investimento estatal feito diretamente em educação dividido pelo número de alunos.
— Ainda investimos menos do que países como Argentina, México ou Chile — compara Mozart Neves Ramos, conselheiro do movimento Todos Pela Educação.
Uma comparação internacional feita com base nas cifras aplicadas em 2008 convertidas para dólar demonstra que, em uma lista de 34 países, o Brasil só aplicou mais dinheiro por aluno de qualquer nível de ensino do que a China. Outro problema é o desequilíbrio entre os níveis educacionais. Enquanto há R$ 17,9 mil disponíveis ao ano para cada universitário, o estudante do Fundamental ao Médio conta com cinco vezes menos.

Pouca inovação na sala de aula
As dificuldades de formação e remuneração dos profissionais da educação, somadas às restrições de orçamento, resultam em outro problema: a dificuldade para apresentar um sistema de ensino renovado, inovador e capaz de despertar o interesse dos estudantes.
— Temos hoje uma situação em que a escola é do século 19, o professor é do século 20, mas o aluno é do século 21. Precisamos colocar todos no mesmo século. Para isso, é preciso ter um currículo atraente, com inovação e criação de mecanismos que estimulem a pesquisa. O aluno do século 21 não quer coisa pronta, enlatada – analisa Mozart Neves Ramos.

Baixa participação da comunidade
Os problemas da educação brasileira não estão apenas dentro do colégio. Um dos elementos apontados para o mau desempenho internacional é o pouco envolvimento de quem está do lado de fora dos muros escolares no universo da educação. A pouca intimidade foi demonstrada pela pesquisa Educar Para Crescer, realizada pelo Ibope: 72% das famílias brasileiras se dizem “satisfeitas”com a educação nacional, e dão uma média 7 (em uma escala de zero a 10) para as escolas públicas e privadas.
Fonte: Zero Hora (RS)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O racismo das cotas universitárias

O governo tentou acertar na “mosca” para perseguir o tão desejado desenvolvimento e equilíbrio social, mas desviou a pontaria. “Foi pior a emenda do que o soneto”. Quis usar a Educação para acabar com os resquícios do racismo de cor ainda existentes e tentar eliminar as terríveis e injustas diferenças sociais da nossa sociedade. Um ideal altamente louvável, pois a Educação é a única arma eficaz para conseguir esse milagre. Sem Educação todo o mundo é vulnerável à exploração dos sentimentos, às demagogias, aos caudilhismos; é vulnerável na saúde, na família, no acesso à comunicação; nunca teremos uma política decente, igualdade de direitos e deveres, cidadania, equilíbrio e bem-estar social. Sem Educação é um estar no mundo de olhos fechados.
É um olhar sem ver, um mirar sem enxergar. Sem Educação não há conhecimento, não há progresso. Ela desperta o raciocínio, germina as ideias que se tornarão forças invencíveis, capazes de transformar o mundo.Por isso o governo é digno dos maiores encômios quando pensou na Educação como o instrumento adequado para resolver as nossas históricas e vergonhosas mazelas sociais. Mas, lamentavelmente, errou no caminho. Preferiu o artificial ao natural. Fixou cotas exclusivas nas universidades para grupos “despreparados”.
E a Educação não dá saltos, não funciona por decreto. Se alguém não conseguiu o conhecimento indispensável para entrar numa universidade, não é por lei que o adquire. O que foi feito é a degradação, um atentado de lesa majestade contra o Ensino universitário, o que implicará na deficiência dos profissionais do futuro. Não é descer o nível da universidade ao nível dos menos preparados, é subir o nível do despreparado ao nível da universidade. Como poderemos confiar no médico, que não tinha base necessária para se matricular numa Faculdade de Medicina, mas foi empurrado por uma lei. Aliás, era de se esperar um protesto dos Docentes, por verem cair o nível de suas Escolas.
Por outro lado, com essa promoção “legal” criam-se situações altamente condenáveis. A lei cria uma espécie de racismo oficial, que pode gerar ódios e explosões. Como ficarão os candidatos, que revelam melhor aptidão (nota), ao verem passar à sua frente outros com classificação inferior, menos preparados, só por que são de cor, pobres ou egressos da Escola pública? Isso pode criar situações indesejáveis.
A solução é a Educação mas a partir da base. Não se pode construir um edifício sobre a areia, mas sobre colunas bem seguras e testadas. Precisamos de uma Educação primária completa, firme. 
O Ensino básico deve ser gratuito para todos, de tempo integral, com Educação física, esportes, atividades sociais etc. Professores bem pagos, bibliotecas, equipamentos modernos e alimentação para quem precisar. É nisso que devemos investir se queremos um país desenvolvido, progressista, sem as nódoas das gritantes desigualdades que temos. 
Bolsas... bolsas não resolvem. Bolsas de fome, de família, de aumento da prole, de cachaça, da preguiça, e outras, não resolvem. Essas bolsas são válidas para emergências de curta duração. Doutra forma transformam-se em esmolas degradantes, que nada recuperam. Tornam-se quistos sociais. Educação fundamental completa, resolve.
Fonte: Diário de Pernambuco (PE)

O Ideb e as eleições municipais

O Ministério da Educação (MEC) divulgou em 14 de agosto o Índice de Desenvolvimento da Educação básica (Ideb) das Escolas de todo o país. Para chegar ao índice de cada Escola de um município, de um estado ou do país, o MEC conjuga as notas obtidas pelos Alunos do 5º e 9º anos do Ensino fundamental e do 3º ano do Ensino médio em avaliações nacionais com informações do censo Escolar sobre a aprovação/reprovação dos Alunos das Escolas brasileiras. Como todo índice, ele é insuficiente para dar conta do conjunto de indicadores de qualidade da Escola, mas é, certamente, um instrumento fundamental para o estabelecimento de políticas e ações visando à melhoria da Escola básica.
E o que revela o Ideb? Revela que, de um modo geral, a qualidade da Escola pública brasileira está muito aquém do que nossas crianças e adolescentes têm direito e merecem. Mostra, ainda, que as crianças que frequentam os anos iniciais do Ensino fundamental (Ideb médio de 5,0) estão aprendendo muito melhor e mais rápido do que os adolescentes do Ensino médio, cujo Ideb médio do país não passou de 3,7.
Percebe-se, pois, que há a necessidade de um enorme esforço por parte dos poderes públicos, dos Professores, dos Alunos e suas famílias para que possamos elevar a qualidade da Escola básica como um todo. Mas, por outro lado, chama atenção a discrepância entre os resultados do Ensino médio e dos anos iniciais do Ensino fundamental (1º ao 5º anos). O que explicaria esta diferença?
Entre os especialistas sobre o tema há certo consenso de que há um conjunto de fatores que formam, por assim dizer, um círculo virtuoso que favorece a melhor qualidade dos anos iniciais do Ensino fundamental. Nessa etapa da Escolarização, os Alunos são acompanhados, de um modo geral, por um número reduzido de Professores; boa parte dos Professores tem formação específica para trabalhar com crianças dessa idade; as famílias tendem a acompanhar mais esse momento inicial da Escolarização, entre outros fatores.
Além desses, há um outro aspecto muito relevante a impactar o aprendizado dos Alunos dos anos iniciais: o aumento, mesmo que tímido, da cobertura da Educação infantil em todo o país.
Considerando que, de um modo geral, a Educação infantil e os anos da Escolarização são de responsabilidade dos municípios, é de se esperar que os novos dirigentes municipais que assumirão as cadeiras no Executivo e no Legislativo no início do ano que vem, tomem consciência desses fatores – e de outros – que contribuem para a melhoria da qualidade do Ensino fundamental e incrementem políticas de municipais de Educação que os levem em conta.
Considerando, ainda, que os próximos dirigentes municipais deverão criar condições para expansão da obrigatoriedade da Educação infantil para as crianças de quatro a cinco anos, é fundamental que a população escolha prefeitos e vereadores que apresentem claramente propostas para uma efetiva melhoria da qualidade da Educação sob responsabilidade de seus municípios.
O que não podemos é continuar a ter políticas municipais de Educação que, feitas de forma amadora e descontínua, não levam em conta as experiências passadas e os estudos científicos sobre a questão e teimam em repetir os erros já cometidos. Depois, diante dos resultados pífios das Escolas, jogam para cima dos Professores, das crianças e suas famílias a responsabilidade pelo fracasso da Escola.
Fonte: Estado de Minas (MG)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Educação versus criminalidade

O crescimento da violência em geral é, atualmente, um dos maiores desafios a serem enfrentados pelas autoridades que exercem o poder público em todo o mundo. De modo geral, a criminalidade pode ser combatida de duas maneiras: pela prevenção e pela ação repressiva. Evidentemente, a combinação dessas duas estratégias tende a gerar os melhores resultados a médio e longo prazo.
Entretanto, muitos governantes priorizam a ação repressiva como forma de responder, de maneira mais imediata, aos anseios dos cidadãos, que clamam por mais segurança em seu dia a dia. Sem abrirmos mão dessa ferramenta essencial de combate imediato ao crime, é preciso refletir sobre os efeitos estruturais e duradouros da ação de prevenção na construção de uma cultura de paz e de uma sociedade sem violência.
Os mais recentes indicadores de criminalidade do município de Betim nos permitem ilustrar essa reflexão. De acordo com dados da Polícia Militar de Minas Gerais, no primeiro semestre de 2012 houve uma queda de 16,2% na taxa de homicídios em Betim em relação ao mesmo período do ano passado.
O percentual em si já seria expressivo, mas ele se torna ainda mais relevante na medida em que se trata do maior índice de queda na criminalidade entre todos os 853 municípios mineiros. Estamos à frente da prefeitura desde 2009. Hoje, temos a satisfação de garantir aos cidadãos que essa redução tão expressiva é fruto de uma política consistente e contínua de investimentos em projetos educacionais e de proteção social.
Nos últimos três anos e meio, nosso governo investiu mais de R$ 900 milhões na área educacional. Em nossa gestão, implantamos, por exemplo, o programa Escola da Gente, que hoje acolhe 12 mil Alunos em horário integral nas Escolas. Com o programa, crianças e adolescentes usufruem de uma Educação integral e podem ficar longe das ruas, da violência, das drogas e dos riscos sociais. Além das aulas regulares, eles contam com acompanhamento Escolar e inúmeras atividades culturais e esportivas em 32 Escolas municipais. 
Outros projetos complementam o nosso investimento global em Educação, como é o caso dos cursos profissionalizantes. Atualmente, essa iniciativa oferece formação técnica para mais de 3,5 mil jovens, que já colocam o pé no mercado de trabalho.
O cuidado com os mais pobres inclui também programas voltados para a moradia, com destaque para o Minha Casa, Minha Vida, em parceria com o governo da presidente Dilma Rousseff. Até o final de nossa gestão serão entregues mais de 2,4 mil unidades habitacionais pelo programa, número recorde na Região Metropolitana de BH e quase o dobro do total da capital. 
Há também a preocupação com o acesso à alimentação de qualidade, o que é comprovado pelos seis restaurantes populares de Betim, que servem 16 mil refeições por dia por apenas R$ 1 cada. 
Em conjunto com todas essas ações, a prefeitura vem atuando também na segurança pública, dentro dos limites da autonomia municipal. Uma das iniciativas foi a ampliação de 40% no número de guardas municipais, cujo efetivo passou de 107 para 150 profissionais entre 2008 e 2011.
É significativo lembrar que o cenário da violência no Brasil é ainda mais grave quando são considerados apenas os jovens em situação de risco social – ou seja, a parcela da população que é diretamente beneficiada pelos projetos educacionais e sociais.
Podemos afirmar, por fim, que Betim não está em destaque em termos de redução da criminalidade por mero acaso ou somente em função de uma ação repressiva. Para a nossa administração, o investimento em Educação de qualidade e em projetos sociais afirmativos é, na sociedade contemporânea, o verdadeiro ingrediente para fazer florescer, plenamente, a cidadania.
Fonte: Estado de Minas (MG)

Educação: o futuro é agora

“Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade ao da Educação.” A frase poderia ter sido proferida pela presidente Dilma Rousseff. As confederações nacionais da Indústria, do Comércio ou da Agricultura a repetiriam com a convicção com que falam da alta carga tributária, dos juros escorchantes ou da defasagem da infraestrutura nacional. Profissionais que buscam colocação no mercado de trabalho assinariam embaixo depois de verem se fechar as portas dos bons empregos e das oportunidades que exigem qualificação sofisticada. Escrito há 80 anos, o enunciado do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova continua tão atual quanto em 1932. Então como agora, o país se dá conta da necessidade de contar com recursos humanos capazes de ombrear com os do mundo desenvolvido. Em 2012, porém, o quadro se apresenta mais complexo. Disputando mercados com economias globalizadas das quais faz parte, o Brasil tem pressa. A competitividade nacional bate no teto da capacitação da mão de obra. Não se pode esperar, por exemplo, que um soldador melhore o produto em menos tempo sem que tenha adquirido conhecimento para o salto qualitativo.
Mais: enquanto nós andamos a passos de tartaruga, os Estados mais avançados ou mais conscientes da urgência imposta pelo contexto mundial seguem a passos céleres — seja para manter-se no topo, seja para chegar mais próximo dos melhores. Significa que ficamos mais para trás. Avaliações nacionais e internacionais comprovam o abismo que separa as duas pontas. Vale lembrar que cérebros não se compram em supermercado. Formam-se. A caminhada exige não menos de uma geração.
Há oito décadas, Educadores que pensaram o Brasil traçaram as diretrizes para o Ensino de qualidade. A orientação incluiu, obrigatoriamente, aulas em tempo integral, qualificação de Professores e infraestrutura adequada. Nada de excepcional. Mas as estatísticas demonstram o descaso que governos após governos, independentemente de partido ou coloração política, dispensam à Educação. Nas campanhas, fazem promessas que, cumpridas, colocariam o país, senão na dianteira mundial, pelo menos entre os primeiros no ranking da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo dos 34 países mais ricos do planeta que aceitam os princípios da democracia representativa e da economia de livre mercado.
Talvez não seja excesso de otimismo afirmar que ainda há tempo de recuperar o tempo perdido. Mas é excesso de otimismo, sem dúvida, imaginar que possamos continuar a substituir ação por discurso. As avaliações mostraram o descalabro do Ensino. Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Cecília Meireles traçaram, no manifesto, o caminho a ser seguido. O futuro, vale lembrar, chegou. É agora.
Fonte: Correio Braziliense (DF)

domingo, 2 de setembro de 2012

Alfabetização precária

O Brasil é hoje a sexta potência econômica mundial, mas resultados do último Indicador do Analfabetismo Funcional (Inaf) mostram que apenas 26% da população podem ser considerados plenamente alfabetizados, o mesmo resultado verificado em 2001, quando o indicador foi calculado pela primeira vez. Os chamados Analfabetos funcionais representam 27%, e a maior parte (47%) da população apresenta um nível de Alfabetização básico. Falta mais qualidade na Educação brasileira. Na Educação e na qualidade de vida somos medianos.
Estudo da Unesco (Education For AllDevelopment Index – EFA) que avalia o cumprimento de metas educacionais revela que o Brasil ocupa a 88ª posição entre os 127 países avaliados. No topo estão o Japão, o Reino Unido e a Noruega. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) classifica o Brasil na 84ª posição entre 187 países avaliados pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Os primeiros colocados são Noruega, Austrália, Holanda, Estados Unidos.
Os dados de 2012 do Índice de Desenvolvimento da Educação básica (Ideb) mostram que o Brasil superou pouco as metas na Educação propostas pelo Ministério da Educação (MEC) em 2011 nos dois ciclos do Ensino fundamental e apenas igualou a meta projetada para o Ensino médio. Criado em 2007, o Ideb é um indicador geral da Educação nas redes privada e pública e leva em conta dois fatores: rendimento Escolar, com taxas de aprovação, reprovação e abandono, e médias de desempenho na Prova Brasil. Essa prova avalia o desempenho de estudantes em língua portuguesa e matemática no final dos ciclos do Ensino fundamental, de 4ª série (5º ano) e 8ª série (9º ano), e no terceiro ano do Ensino médio.
Os resultados do Ideb mostram que 39% dos municípios e 44,2% das Escolas estão abaixo da meta. Em 2011, os estudantes dos anos iniciais do Ensino fundamental tiveram 5 pontos. A meta era 4,6, um índice que o país já havia obtido na avaliação anterior em 2009. Estudantes dos anos finais do Ensino fundamental tiveram 4,1 pontos em 2011. A meta era 3,9, também uma marca obtida há dois anos.
Os dados confirmam que precisamos qualificar – e muito – a nossa Educação, fator base para a inclusão social, cidadania e qualidade de vida. Se no Ensino fundamental a situação não foi boa, no Ensino médio foi muito pior. Em 2011, os Alunos alcançaram a meta projetada, de 3,7 pontos, mas o resultado foi praticamente o mesmo de dois anos atrás. As metas até 2022 fazem parte do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). Para Alunos dos anos iniciais do Ensino fundamental é chegar a 6 pontos; para Alunos dos anos finais do Ensino fundamental é de 5,5 pontos e para o Ensino médio é de 5,2 pontos. A escala vai de 0 a 10. 
O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, reconhece que o Ensino médio preocupa o governo. "Temos 13 disciplinas obrigatórias no Ensino médio da rede pública. É uma sobrecarga muito grande para o estudante e não contribui para ter foco nas essenciais: português, matemática e ciências. Outro problema é a parcela significativa de Alunos matriculados no curso noturno". Luiz Araújo, colaborador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, afirma que "o Ensino médio sofre de carências que vêm se acumulando. A falta de um padrão mínimo de qualidade também atinge essa etapa Escolar".
Os resultados do Ensino médio mostram que 9 estados tiveram redução das notas e curiosamente, em áreas regionais distintas. Em 2009 foram apenas dois. O mérito fica para algumas excelentes Escolas: Colégio de Aplicação – Universidade Federal de Pernambuco, que conquistou pela terceira vez nota 8,1 nos finais do Ensino fundamental; a Escola Ciep Glauber Rocha do RJ, em bairro violento, teve espantosamente nota 8,5, e a Escola Bom Princípio, no interior do Piauí, teve a maravilhosa nota 7,7. 
Minas Gerais é campeão nacional nas séries iniciais do Ensino fundamental, com nota 5,9, e o Ceará teve boa média geral, de 4,9, superando muito a meta. Os dados mostram que nem sempre dinheiro é fator determinante para a excelência Escolar. Como educam essas excelentes Escolas? É necessário fazer um diagnóstico profundo dos fatores envolvidos nessas excelências Escolares e traçar programas competentes que devem ser praticados com o devido acompanhamento técnico do MEC para a consecução de Alfabetização plena e Educação de qualidade em todo o nosso Brasil.
Fonte: Estado de Minas (MG)

O futuro reprovado

O Brasil foi reprovado no vestibular para o futuro. Porque o futuro tem a cara de sua escola no presente.
Nas últimas séries do nosso Ensino Fundamental, as escolas públicas, onde estuda a maior parte de nossos alunos, a média do IDEB –Índice de Desenvolvimento da Educação Básica - foi de 3,9. As escolas particulares foram aprovadas, mas com a sofrível nota 6. A média ponderada pelo número de alunos é de 4,1, envolvendo 1,8 milhões de alunos nas particulares, com a média 6,0, e 12,4 milhões de alunos, nas públicas, com média 3,9.
No Ensino Médio, a média ponderada, incluindo as particulares é de 3,7.
Além da reprovação geral, o IDEB mostra que o Brasil é dividido pela desigualdade na educação dos filhos dos pobres e dos filhos das classes médias e altas.
Na mesma semana, o Jornal Nacional da Rede Globo mostrou a situação de nossas escolas, passando a sensação de que assistíamos a notícias de um terremoto, que está a devastar nosso futuro.
Outro programa, o “CQC”, da Rede Band, mostrou escolas em uma cidade do Piauí, certamente piores do que as piores do Mundo. Foi possível ver o futuro. E não pareceu bonito.
Apesar disso, o MEC comemorou os resultados e ainda divulgou nota à imprensa, no dia 14 de agosto, dizendo que “O Brasil tem motivos a comemorar”.
O Ministro está no cargo há apenas oito meses e não tem culpa por este desempenho, mas deveria reconhecer a tragédia, a vergonha e convencer a presidenta da República a fazer pela educação o esforço que vem fazendo na economia.
A presidenta precisa entender a gravidade da falta de infraestrutura educacional, ainda maior do que foi a falta de infraestrutura física, e convocar todo o País a se empenhar por uma urgente Revolução na Educação de Base.
Enquanto o Brasil traça meta para o IDEB alcançar a nota 6,0, em 2021, a China está programando voo tripulado à Lua, antes de 2020.
Análise mais cuidadosa mostra que, na média, as escolas públicas federais se saem melhor do que as particulares. A melhor nota, 8,6, foi obtida por duas escolas particulares: Escola Santa Rita de Cássia e Escola Carmélia Dramis Malaguti conseguiram o primeiro lugar com nota 8,6. Logo em seguida uma pública federal; o Colégio de Aplicação da UFPE teve nota 8,1; e a média das públicas federais do Ensino Fundamental (6,3) foi superior a das escolas particulares (6,0).
Isso mostra que o caminho para fazer a revolução educacional que o Brasil precisa passa pela ampliação da presença federal na Educação Básica. A Federalização exige um Ministério para cuidar apenas da Educação Básica; a implantação de uma Carreira Federal para os professores; e a responsabilidade da União sobre a qualidade de cada escola, todas em horário integral. Isso pode ser feito por cidade, chegando a todo o Brasil no prazo de 20 anos.
Isto pode ser feito. Até porque o futuro tem a cara de sua escola no presente. E a cara de nossas escolas mostra um futuro reprovado.
Cristovam Buarque, senador, O Globo (RJ)

sábado, 1 de setembro de 2012

Manter os alunos na escola é o maior desafio do Ensino Médio

O ensino médio brasileiro é uma fonte de frustração. Não apenas por seu resultado pífio nas avaliações feitas pelo governo federal – em dez estados houve regressão no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2009 a 2011, entre eles o Paraná –, mas também pela condenação de milhares de jovens a uma perspectiva modesta de vida e por reduzir a capacidade de desenvolvimento do país. É na fase em que passam para a vida adulta, enquanto cursam o ensino médio, que os jovens que vencem as deficiências do ensino básico decidem sair da escola. Dos 90% que chegam ao fim do ciclo, uma parcela pequena tem os conhecimentos básicos exigidos para uma vida profissional promissora.
Segundo estatísticas do movimento Todos pela Edu­cação, menos de 35% dos alunos do último ano do ensino médio atingiram o nível de conhecimento adequado em Português e Matemática para a série. Além disso, as notas do Ideb mostram que a média geral desta etapa é 3,7, enquanto a dos primeiros anos do ensino fundamental é 5. É com esse conhecimento que a maioria dos jovens encara o mercado de trabalho. “A escolaridade básica para o mercado hoje é o ensino médio. Se ele é comprometido, a capacidade de desenvolvimento do país também fica limitada”, diz Nilson Vieira Oliveira, pesquisador de políticas públicas do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial.
Para os especialistas, o baixo desempenho pode, em grande parte, ser explicado porque o jovem não vê sentido em cursar o ensino médio e acaba, ao longo do caminho, dando prioridade ao trabalho. Os dados do questionário aplicado na Prova Brasil de 2009, exame que faz parte do cálculo do Ideb, mostraram que 60% dos estudantes da rede pública que iriam ingressar no ensino médio pretendiam trabalhar e estudar.
Durante a dupla jornada, as dificuldades são muitas. “A escola não fornece estrutura para isso. Faltam professores e mais bolsas do governo que ajudem a manter um estudante apenas na escola. Além disso, o currículo não é atrativo para o aluno, pois não ensina, por exemplo, a aplicar os conhecimentos na vida prática, como analisar um contrato de financiamento de um carro ou casa”, diz o consultor educacional Renato Casagrande.
Falta de identidade
Embora a pontuação das particulares no Ideb tenha sido superior à das públicas, o desempenho da rede privada ficou praticamente estagnado nos últimos anos. Os estudantes das classes média e alta, que não teriam necessidade de trabalhar, historicamente encaram o ensino médio apenas como uma porta de entrada para a universidade. Ou seja, o aluno ingressa nessa etapa pensando que precisa memorizar os conteúdos para ser aprovado no vestibular.
Este é o caso da estudante do 1.º ano do Colégio Acesso Joyce Gabriele dos Santos de Souza, 14 anos. Pela primeira vez em escola privada após cursar todo o fundamental na rede pública, ela estuda com o objetivo de ingressar no ensino superior daqui a três anos. Embora suas notas tenham caído em relação às da etapa anterior, ela acredita que o conteúdo que aprende é focado para um bom desempenho no vestibular, que, independentemente do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ainda existe em muitas instituições do país. “Agora é muito mais puxado, requer mais concentração e mais responsabilidade porque meu desempenho agora vai refletir lá na frente, na conquista do curso superior”, avalia.
Modernizar o currículo é uma das saídas
Por causa do baixo desempenho do ensino médio no Ideb 2011, o governo federal retomou a proposta de alterar o currículo dessa etapa e dividir as 13 disciplinas obrigatórias em grandes áreas. O debate, que começou em 2011 pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), sugere a mudança baseada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que está dividido em quatro grupos: Matemática, Linguagens, Ciências Humanas e Ciências da Natureza.
O consultor educacional Renato Casagrande diz que a ideia é uma boa alternativa, desde que venha acompanhada de uma melhor formação dos professores. “Não adianta mudar currículo sem professor que dê conta de ensiná-lo. Pelo menos um curso de capacitação para os docentes precisa ter.”
Escolha
Em países com bons modelos desta etapa do ensino, como nos Estados Unidos, por exemplo, o aluno pode escolher algumas disciplinas que quer cursar e assim focar na área de interesse. Para Casagrande, essa seria uma boa medida para se adotar aqui, como forma de aumentar o interesse pelo conteúdo.
Porém, para a professora do Departamento de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp) Márcia Malavasi, de nada adianta uma mudança curricular sem alteração de estrutura, tanto de espaço físico como de corpo docente, e ajuda financeira para que o estudante não precise abandonar a escola para trabalhar. “Mesmo que o interesse aumente, se ele não tiver dinheiro para fazer o percurso entre casa, trabalho e escola, não adianta”.
Fonte: Gazeta do Povo (PR)

O que fazer com a Educação?

O editorial do jornal “O Estado de São Paulo”, de 20 de agosto, expôs de modo lúcido uma problemática cada vez mais aguda no campo educacional, que o próprio título explicita muito bem quando afirma que “O MEC não sabe o que fazer”, principalmente em relação às contínuas propostas de mudanças de currículos, que nem os governos estaduais nem municipais querem implementar.
É evidente que tais reformas tem caráter ideológico, cujas diretrizes estão contidas no Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3), e que vai sendo, aos poucos, implantado no País, em diversos setores, com uma concepção de sociedade bastante anárquica. O fato é que o maior prejudicado em todo este embate ideológico é o aluno, que está cada vez sabendo menos das coisas, e despreparado para lidar com a realidade atual. É certo — como diz o editorial — que “não é lógico, nem viável, que um órgão federal adote diretrizes e políticas uniformes sem amarrar esse ciclo numa camisa-de-força”. 
Uma das consequências de todo este imbróglio que vem sendo imposto há já mais de uma década, é a debandada dos melhores professores para outras atividades profissionais. Boas inteligências que entraram no sistema com o sonho de serem educadores, quando perceberam a armadilha de torná-los cobaias e ainda mais ventríloquos de estranhas ideologias, acabaram saindo do sistema e buscando outras alternativas de sobrevivência. Esta é uma triste realidade que vamos constatando em várias regiões do país. 
O editorial do Estadão ainda ressalta que “o ensino médio precisa de mudanças radicais, mas o governo não sabe o que fazer. Também não sabe como superar a resistência dos Estados e municípios a inovações pedagógicas. E não quer promover um debate nacional do problema”. 
Nessas questões, quer-se inventar a roda, com inovações curriculares que em nada ajuda a melhorar a capacidade criativa e crítica do estudante, muito menos desenvolver os potenciais dos alunos, que não conseguem mais uma visão global das coisas, de tão fragmentada que está à informação. Em vez de adquirir conhecimento e capacidade de pensar, os alunos apenas memorizam informações básicas e desconexas, e não sabem o que fazer com elas nas coisas práticas do dia-a-dia, etc. 
Tudo isto confirma que o sistema de ensino está falhando em sua finalidade social, e o Estado tem o dever de buscar corretivos, e meios de aprimorar as boas iniciativas, e dar um rumo que realmente promova as melhorias desejadas em nossa Educação. Cada vez mais vemos profissionais sendo reprovados em exames da categoria, e prevalecendo uma espécie de lógica do improviso, em quase tudo, que compromete a qualidade do ensino e dos serviços prestados no s diversos campos da sociedade.
Precisamos ficar atentos a essa situação e dar a nossa colaboração no processo, não sendo indiferentes ao que aí está. Não podemos ficar passivos e omissos com declarações feitas, por exemplo, por Priscila Cruz, diretora da ONG Todos pela Educação, afirmando que com a fragmentando dos currículos, “hoje o aluno sai (da escola) sabendo nada de tudo”. 
Esta é uma realidade que tem que mudar, se quisermos o Brasil próspero e desenvolvido, pois só por um ensino valorizado é que podemos garantir o verdadeiro desenvolvimento do nosso País. Pois o desenvolvimento deve visar o bem das pessoas, a começar pelo investimento educacional, por um sistema de ensino que tenha efetiva qualidade.
Valmor Bolan, doutor em sociologia e Presidente da Conap/MEC, in: Portal Bem Paraná

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Desafio é valorizar e motivar os professores

Oitenta anos atrás, o Manifesto dos pioneiros da educação nova, que lançou as bases para uma escola pública de qualidade no Brasil, foi publicado. O documento, que até hoje serve de referência para a busca por melhorias no ensino, é simples ao mencionar o professor: "De todas as funções públicas, a mais importante". De 1932 par cá, entretanto, a carreira vem se tornando cada vez menos atrativa. Salários pouco expressivos, formação inadequada para encarar a sala de aula e falta de condições de trabalho formam o problema que o governo, nas três instâncias, precisa enfrentar.
"Não há dúvidas de que qualquer iniciativa que desconsidere a valorização do professor será incapaz de mudar o atual quadro da educação", afirma Romualdo Portela, professor de política educacional na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com ele, o primeiro objetivo é garantir uma boa formação. "Vivemos um ciclo perverso, em que o aluno de baixo rendimento no ensino médio, formado geralmente pelo ensino privado de baixa qualidade, é o que vai para a sala de aula ser professor, perpetuando o ciclo", afirma.
A formação defasada do professor brasileiro pode ser atestada por números. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), ligado ao Ministério da Educação (MEC), revelam que um em cada quatro docentes não tem a formação de nível superior. Apesar das iniciativas do governo federal, que oferece cursos de graduação e de aperfeiçoamento de professores, o número de matriculados ainda é baixo: cerca de 175 mil — aproximadamente 30% da quantidade de docentes sem o terceiro grau. Além disso, o índice de desistência é alto, aponta Heleno Araújo, dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que atua em Pernambuco.
"A média é de 32% de desistências em Pernambuco nos cursos da Plataforma Paulo Freire, para professores que não têm o nível superior. Entre as principais causas, está o fato de as aulas presenciais, quinzenalmente, serem em polos distantes de algumas cidades. Muitas vezes, o professor não tem nem dinheiro para o transporte. Outra coisa é o tempo. Como eles não são liberados de suas escolas, alguns não conseguem conciliar", diz Araújo. O MEC não soube informar o índice de abandono dos cursos ofertados aos professores.

Exercício de fé
Apesar das dificuldades, há professores brasileiros com fé na profissão. Uma pesquisa realizada em 2010 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelou que 50% afirmaram que fariam a mesma escolha se pudessem voltar no tempo. A professora do ensino infantil Juciane Melo Cipriano, 44 anos, está nessa parcela. A realidade, muitas vezes desestimulante, não tirou o idealismo dos olhos dela. Ao falar dos desafios da profissão, que ela exerce há 25 anos, a voz embarga e os olhos enchem de lágrima. "Eu sou apaixonada pelo que faço, principalmente, porque consigo ver o resultado na vida da criança. O professor enfrenta obstáculos, mas com paixão a gente não desiste. Se você não acredita, melhor escolher outra profissão", afirma.
A receita de sucesso para fazer a diferença em sala de aula segue três passos simples: escutar, conhecer e conquistar o aluno. Apesar do otimismo, Juciane reconhece que o ensino no país ainda precisa avançar muito. Entre as críticas, a recém-eleita diretora da Escola Classe 111 Sul aponta problemas na infraestrutura dos colégios e na remuneração dos docentes. "Falta valorização da carreira. O professor não é visto da mesma forma que os outros profissionais com ensino superior. O próprio docente nem sempre se valoriza."
"De todas as funções públicas, a mais importante"
Referência ao papel do professor, segundo o Manifesto dos pioneiros da educação nova, lançado em 1932
"Vivemos um ciclo perverso, em que o aluno de baixo rendimento no ensino médio, formado geralmente pelo ensino privado de baixa qualidade, é o que vai para a sala de aula ser professor, perpetuando o ciclo"
Romualdo Portela, professor de política educacional

Duas perguntas para
Cesar Callegari, secretário de Educação Básica do MEC
O que pode ser feito para melhorar a formação do professor no Brasil?
É verdade que muitos dos que dão aulas nas diferentes áreas do conhecimento, como matemática, português e biologia, não têm formação adequada, não estão licenciados para isso. É um grande desafio, que precisa ser enfrentado. Já passaram 300 mil professores nos últimos cinco anos pelos programas Pró-Letramento e o Gestar, do MEC. Os grandes investimentos que serão feitos, de agora em diante, serão voltados à valorização do professor, pois precisamos atrair para o magistério os melhores entre os melhores, para termos uma educação de qualidade no Brasil.

E a questão salarial?
O estabelecimento do piso nacional é mais uma medida que tende a tornar a carreira do magistério atraente. Somos favoráveis, não apenas pela questão salarial, mas porque trata de um plano de carreira para os profissionais. Sabemos da dificuldade de estados e municípios e suplementamos, quando necessário, os recursos para a educação dos entes por meio do Fundeb. Acredito que estamos construindo uma série de motivações para parcelas significativas da juventude passarem a considerar a carreira de professor como uma opção real de vida e de trabalho. Hoje, a opção pelo magistério é secundária.
Fonte: Correio Braziliense (DF)

O segredo de bons resultados na rede municipal

Thaís Fernandes quer ser promotora de Justiça. Os sonhos da menina de olhos expressivos e brincos em formato de flor se constroem dentro da Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental (Emeif) Mozart Pinto, no Benfica. Aluna do 5º ano, Thaís, de 10 anos, descreve a escola em que está desde a educação infantil lembrando das pessoas. Diz haver professores e coordenadores “comprometidos e sérios”, além de alunos que “gostam de estudar”.
Essa é a fórmula da escola - dita repetidamente por alunos, professores e gestores - para conquistar os melhores resultados da rede pública municipal de Fortaleza no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2011. As turmas de 5º ano obtiveram média de 5,6; já os alunos do 9º conquistaram 4,8. Os índices são maiores que as metas da escola e superam a média de Fortaleza para o 5º (4,2) e o 9º anos (3,5). O desempenho da Emeif Mozart Pinto, porém, não supera os das escolas com melhores resultados no Ceará.
Como O POVO mostrou no último dia 20, duas escolas alcançaram Ideb 8,1 no ensino fundamental I de Pedra Branca. As escolas de Ensino Infantil e Fundamental Cícero Barbosa Maciel e Sebastião Francisco Duarte, ambas na zona rural, ficaram em 12º lugar entre todas as instituições públicas de educação do País. Além delas, outras quatro escolas (de Itarema, Sobral, Mucambo e Fortaleza) estão entre as melhores do Brasil. O Colégio Militar da Capital alcançou nota 6,8..
Mas, afinal, como uma escola da rede pública de Fortaleza constrói um Ideb satisfatório? O somatório que provoca bons resultados é complexo, mas executável, dizem coordenadores escolares, especialistas e professores ouvidos pelo O POVO. Reúne gestão comprometida, acompanhamento pedagógico, formação continuada dos professores, participação familiar na vida escolar das crianças. Assim, chega-se à motivação do aluno; motivado, ele aprende e tem bons resultados.
A preocupação na Mozart Pinto, indica a diretora Antônia Eliane Sampaio Lima, é com alunos e professores. Como em toda a rede municipal, desde julho, os docentes ganharam tempo para planejar atividades e trocar experiências com outros professores. Além disso, pais e mães estão presentes na escola. “É uma parceria”.
Os alunos, comenta, são conscientizados da responsabilidade que têm sobre o próprio futuro. Para os que têm alguma dificuldade, a escola oferece acompanhamento pedagógico e reforço. “Temos laboratório, biblioteca, material. Tudo que uma escola particular tem. Damos suporte para o professor... É um trabalho conjunto”, destaca Eliane, conhecida entre professores e alunos pela cobrança de disciplina e comprometimento - fatores que contribuíram, dizem todos, para as conquistas da escola.

Renascimento
A série que transformou a Emeif José Estanislau Façanha primeira colocada entre as escolas municipais não é ofertada neste ano, mas as iniciativas para a conquista só crescem. O Ideb de 4,8 no 9º ano representou um renascimento para a instituição, que passou por períodos de crise no passado, com confusões entre alunos e até carência de material. Foi a “boa vontade” da nova gestão que causou a transformação, defende a professora Lúcia Jucá, do 5º ano. “E a comunidade percebe a mudança”, diz. A escola fica no Jardim Cearense.
A diretora Fabrícia Maria Gonçalves Gadelha diz que é o trabalho colaborativo entre direção, coordenação, secretaria da educação, família e aluno o gerador do bom índice. “A escola tem todas as ferramentas que a Prefeitura entrega, mas é a gestão que faz diferença; o pedagógico que faz diferença”. O acompanhamento de alunos e a formação continuada dos professores, com tempo de planejamento, somam para um bom resultado. “O aluno ganha com isso.”
Para o diretor da escola Professor Denizard Macêdo de Alcântara, Josa Carlos Vasconcelos de Lima, a transformação que provoca bons resultados é lenta, mas gratificante. A escola, que fica no Quintino Cunha, também alcançou nota 4,8 com a turma de 9º ano - também não mais ofertada em 2012.

Salto qualitativo
Ele conta que ainda é difícil atrair pais para o ambiente escolar. “Na comunidade, a educação é um produto, não um valor. Muitas vezes, os pais se preocupam se vai ter aula para saber se o filho vai ficar em algum lugar. “Quando o pai estiver preocupado para o filho não perder conteúdo, ai vamos ter salto qualitativo”, considera o diretor. Josa destaca que a escola procura garantir o protagonismo dos alunos no processo de formação. Para isso, procuram-se atividades extraclasse - como esporte e rádio-escola - e linguagem que façam parte do cotidiano do estudante. “O professor é um mediador. O jovem precisa ser protagonista”. O bom resultado em uma prova é consequência disso, avalia.
Fonte: O Povo (CE)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sugestões para melhorar o Enem

 

Em 7 de agosto, fomos recebidos em Brasília pelo presidente do Inep – órgão do MEC responsável por toda a logística do Enem –, Luiz Cláudio Costa para uma reunião de interlocução altamente técnica e que nos deixou esperançosos. Toda a sociedade anseia por um Enem sem problemas, após as trapalhadas ocorridas por motivos torpes, desonestidade de fraudadores e – até onde a vista alcança – por incúria de uma parte dos gestores.
Coordenamos uma equipe multidisciplinar de 11 professores, tendo como premissa básica serem educadores – sem qualquer interesse subjacente que não fosse o de contribuir por uma boa causa. Educadores caldeados na frágua da intensa convivência com alunos de escolas públicas e privadas, vários deles mestres, doutores e autores de material didático. E, de modo resumido, essas foram as observações feitas ao Inep (a íntegra está no site www.sinepepr.org.br):
Há excesso de contextualização, o que alonga o enunciado e deixa a sensação de um exa­­me demasiadamente extenso. Na área de­­ Ciências Exatas, em especial, há contextualizações forçadas e há demasia de aritmética (continhas), tangenciando apenas con­­teúdos mais profundos e de raciocínio lógico.
As 180 questões objetivas das quatro áreas do conhecimento valem apenas 50% da prova. Na outra metade, reina absoluta a redação. Até hoje, não houve nenhuma explicação para esse peso excessivo. A sugestão da equipe multidisciplinar é que as quatro provas valham 20% cada uma, mesmo valor que seria atribuído à redação.
O conteúdo programático está genérico demais; merece ser mais bem especificado e não tão abrangente. A grade curricular deve ser reduzida em 20% a 30%. Há penduricalhos desnecessários. Nenhum educador sério pretende fazer que o aluno do ensino médio estude menos, mas que empregue honestamente o seu tempo, preparando-se bem para as elevadas exigências futuras.
Tem-se como premissa que o tempo é insuficiente: 3 minutos, em média, para a resolução de cada questão. Julgamos que o número de 180 questões está adequado, pois diminuí-las compromete a abrangência e aumentar o tempo da prova levará o candidato à exaustão. A solução é reduzir parte dos enunciados desnecessariamente longuíssimos, e que o MEC assuma e divulgue amplamente que a administração do tempo é uma das habilidades exigidas.
Somos favoráveis à consolidação do Enem e à adoção de um currículo unificado para o ingresso nas universidades. Para este mister, que se contemplem doutores e mestres de nossas universidades, mas também professores do ensino médio, que diariamente honram o tablado de nossas salas de aula – os metros quadrados mais nobres da escola.
Ao término da reunião, o presidente do Inep anuiu que é necessário levar mais informações e melhor capacitar os professores das escolas; minha experiência pessoal reforça essa percepção, e na reunião relatei que, ao palestrar para oito escolas públicas da periferia de Curitiba, vi que os alunos estão minimamente instruídos não apenas sobre o Enem, mas também sobre o Prouni, o Sisu, o Fies e as cotas.
Os erros do passado permitem um doloroso aprendizado. O encontro – que, por ser o primeiro em toda­­ a existência do Inep, já diz muito – deu a sensação de que o Inep está ca­­minhando na direção certa. Há 5,8 milhões de candidatos inscritos pa­­ra o Enem 2012 que, além da esperança num futuro melhor, também carregam o fardo da incerteza­­ e da insegurança. É preciso removê-lo.
Jacir J. Venturi, vice-presidente do Sinepe/PR, in: Fonte: Gazeta do Povo (PR)

Novo Ensino Médio no País busca modelos

As mudanças curriculares no Ensino Médio, que começam a ser desenhadas pelo Ministério da Educação (MEC), não devem destoar do que já está sendo implementado no RS. Segundo a secretária-adjunta da Educação, Maria Eulalia Nascimento, o MEC ainda não tem uma proposta formatada para ser encaminhada ao Conselho Nacional do Educação e solicitou a colaboração dos estados. É o chamado "Pacto pela Valorização do Ensino Médio" que irá ajudar a consolidar esta mudança.
O governo federal, diz a secretária, definiu três pontos de partida para o debate. O primeiro é a substituição da Prova Brasil pelo Enem. Este, segundo o MEC, é feito por 1,5 milhão dos 1,8 milhão de alunos que estão concluindo o Ensino Médio e abrange todas as áreas do conhecimento. Já a Prova Brasil é restrita às áreas de Português e Matemática e, baseada em amostragem, atinge apenas 70 mil estudantes.
O segundo item é a criação de uma política para o Ensino Médio Noturno. "Precisamos de um tratamento diferenciado para alunos que estudam à noite porque trabalham durante o dia", salienta Maria Eulalia. E o terceiro e último ponto é o programa do livro didático. "Não podemos implantar projeto integrando áreas do conhecimento e encaminhar livros onde as disciplinas continuam fragmentadas", alerta.
Os itens apontados pelo ministério não impedem a principal mudança, acelerada em função do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) recentemente divulgado, e que revelou a fragilidade do Ensino Médio. "Precisamos de um novo currículo, mais flexível, menos fragmentado, tirando um pouco dessa sobrecarga de disciplinas", destaca o ministro Aloizio Mercadante. Segundo ele, o novo currículo deve ser organizado com base nas quatro áreas de conhecimento cobradas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) - Matemática; Linguagens; Ciências da Natureza e Ciências Humanas.
Sistema no RS
- EM Politécnico: com 200 horas a mais para seminários de integração entre as disciplinas.
- Curso Normal: para a formação de professores.
- EM Profissional integrado ao Médio: o aluno recebe também o diploma do curso técnico.
Fonte: Correio do Povo (RS)