segunda-feira, 23 de abril de 2012

Obrigação ou problema? Brasil debate a religião na escola pública

A constitucionalidade da prática do ensino religioso em escolas públicas será analisada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em breve. Fora dos tribunais, partidários defendem pontos de vistas opostos enquanto aguardam pela decisão da Justiça. De um lado, estão os que vêem na disciplina uma porta para ensinamentos sobre respeito a amor ao próximo. De outro, aqueles que enxergam a matéria como uma oportunidade para imposição de valores apenas de determinados grupos.
Para Roseli Fischmann, por exemplo, "as escolas públicas devem servir a todo cidadão e contribuir para formar um princípio de cidadania que não beneficie nenhum grupo em particular". Professora da pós-graduação em Educação da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Metodista de São Paulo, ela questiona a constitucionalidade do ensino religioso, o que considera "uma prática muito grave".
Na outra ponta da corda está o deputado federal Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), autor de projeto de lei que propõe a matéria como obrigatória, mas que prevê a preservação do caráter facultativo da matrícula pelo aluno. A proposta está tramitando na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e obteve voto favorável do relator, o deputado Pedro Uczai (PT-SC).
"Embora nosso País seja laico, quer dizer, não tenha uma religião oficial, a constituição foi promulgada em nome de Deus. Ou seja, o País não tem uma religião oficial, mas não é um País ateu. Acredita-se em uma força superior cujo nome é Deus. Então, é possível darmos a nossos filhos pelo menos o pontapé inicial para que a alma deles se desenvolva com os grandes ensinamentos: respeitar pai e mãe, não cobiçar a mulher do próximo, não roubar, não matar", defende Feliciano.
Feliciano considera, contudo, que seu projeto não incentiva a doutrinação. Para ele, trabalhar com a conversão dentro de uma escola seria inconstitucional. Porém, o pastor indica a importância de transmitir ensinamentos como a fé e a existência de um criador. "Se o ensino religioso continuar facultativo, vai seguir insosso e insípido como é hoje. Existe preconceito dos professores e dos alunos", argumenta. O impacto da oferta do ensino nas escolas públicas também poderia ser detectado na redução da violência, prevê o deputado.
O caráter facultativo que está previsto na Constituição, na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação e, também, no acordo entre o governo brasileiro e a Santa Sé - legislações que regulamentam o ensino religioso no País - é questionado pela professora Roseli, principalmente porque a disciplina compõe o currículo do ensino fundamental, que agrega crianças entre 6 e 14 anos.
"Elas são vulneráveis, nem têm como se defender ou como debater seu ponto de vista", salienta. No estado de São Paulo, por exemplo, as aulas de ensino religioso do 1º ao 5º ano do ensino fundamental nas escolas públicas são ministradas de forma transversal, ou seja, o conteúdo é distribuído nas demais disciplinas. Esse método impede que as famílias façam valer o direito de quererem ou não que os seus filhos se matriculem na disciplina. "O professor não vai falar 'agora é religião, quem não quer ouvir saia'. Mesmo que diga, os alunos podem sofrer discriminação dos colegas, até algum tipo de cobrança", opina a professora.

        Oração antes da aula
No Colégio Estadual Santa Cândida, em Curitiba, no Paraná, o ensino religioso faz parte da grade de disciplinas para os alunos do 6º e do 7º ano do Ensino Fundamental. A secretária-geral e pedagoga da escola, irmã Regina Mika, garante que a escola não privilegia uma única religião, mas procura oferecer conhecimento sobre diversos tipos de crença. Segundo ela, apesar de ser uma disciplina facultativa, todos os alunos participam, sem qualquer registro de reclamação dos pais. A pedagoga conta que, antes do início de cada turno de aula, é feita uma oração "pedindo a benção de Deus para o dia de trabalho", que é transmitida a todas as turmas por meio da rádio do colégio. "Mas é mais como uma mensagem", ressalva.
Existem escolas que defendem a existência de ensino religioso, mas oferecido como alternativa à transmissão de valores éticos, ou ainda trabalhando a história das religiões em sala de aula. É o que ocorre em algumas escolas particulares, como o Colégio ICJ, em Belo Horizonte (MG). No currículo, é oferecida a disciplina de Formação Humana. O ensino é "independente de qualquer religião", explica a professora Durce Alves, que cita sexualidade, atualidades e voluntariado como alguns dos temas desenvolvidos em aula.
A professora Roseli Fischmann encara a opção com ressalvas. Para ela, o ensino da história também apresenta diferenças, e seria necessário avaliar se o conteúdo está sendo transmitido de forma adequada. "É muito fácil que o estudo da história das religiões se transforme em uma doutrinação e numa comparação imprópria", justifica. O ensino inter-religioso pode gerar conflitos entre o que é trabalhado no ambiente escolar e o que os pais pretendem transmitir ao filho sobre religiosidade. "Mesmo que a escola faça uma escolha por interconfessionalidade, uma composição dessas religiões, quem garante que isso é do interesse da fé dos pais? Quem garante que isso não vai gerar discriminação?", indaga.

O papel do professor
A crença do professor é outra questão levantada pela professora Roseli Fischmann. Afinal, falar sobre diversas religiões e propor atividades nesse sentido em sala de aula pode violar o direito do educador de ter sua própria fé, entende Roseli. Ela reforça que a crença pertence ao foro íntimo, à consciência de cada um. "Ninguém pode ser obrigado a falar alguma coisa diferente daquilo que crê", diz.
Por outro lado, essa fé também poderia condicionar a visão e o discurso do professor que se propõe a conduzir uma aula de ensino religioso. Para o deputado, o tema seria solucionado com a capacitação de pessoal. Em um dos pareceres da Comissão de Educação e Justiça da Câmara dos Deputados, o relator Pedro Uczai inseriu no PL 309/11 um parágrafo que prevê a criação, pelo Ministério da Educação (MEC), de diretrizes curriculares nacionais para o curso de Licenciatura Plena em Ensino Religioso, único que estaria credenciado para habilitar professores dessa disciplina, desconsiderando Teologia, Filosofia e outras áreas de conhecimento das humanas.
Para a professora Roseli Fischmann, a crença religiosa não é incompatível com uma educação autônoma em relação a valores e ética. Mas ela ressalta: "Não é dizer 'não faz isso porque Deus não gosta'. A criança deve ser educada para ter consciência e ser responsável por seus atos".
O tema deve ser analisado pelo STF a partir de uma ação movida por cinco organizações educacionais e de direitos humanos em março deste ano, que exige que seja assegurado o ensino religioso não confessional (sem vinculação com igreja ou religião específica). Um dos pontos contestados é a classificação do ensino como "parte integrante da formação básica do cidadão" (art. 33 da Lei de Diretrizes Básicas).
Fonte: Terra

Alunos de escola nº1 de SP não têm desempenho nota 10 em 2012

Alunos que se formaram em 2011 no 5º ano do ensino fundamental na escola estadual Reverendo Augusto da Silva Dourado, em Sorocaba, tiveram neste 1º bimestre desempenho bastante diferente do aferido pelo Saresp, em novembro do ano passado – que está sob suspeita de fraude. Professores da cidade ouvidos pelo iG relatam que há alunos que precisam de reforço em português e o desempenho em matemática é apenas mediano.
Na avaliação que rendeu à escola nota 9,3, a maior entre as escolas estaduais de São Paulo, todos os 27 alunos tiraram 10 em matemática – fato raro e único na rede – e a média da turma em português foi 9,1. A média do Estado de São Paulo foi 4,24 e das escolas de Sorocaba, 4,61. O bom desempenho dos estudantes garantiu bônus de 2,9 salários aos profissionais da escola.
Após a denúncia de que os alunos tiveram ajuda de professores, revelada pelo iG, a Secretaria de Educação instaurou uma apuração do caso. Uma comissão de averiguação formada por profissionais de São Paulo e da Diretoria de Ensino de Sorocaba chega hoje a cidade para investigar a suspeita de fraude. Está marcada para esta quinta-feira uma reunião entre a direção da escola, alunos que fizeram a prova e seus pais. Hoje, os alunos estudam em outras escolas da região, pois a Reverendo Augusto da Silva Dourado tem classes somente até o 5º ano.

Insegurança
Em Iporanga, bairro onde fica a escola acusada de fraude, um clima de insegurança e tensão se instaurou depois que a suspeita de fraude no Saresp se tornou pública. Pais que negam conhecer as irregularidades defendem a escola e estão descontentes com os que realizaram a denúncia. Uma série de boatos, como a informação infundada de que os alunos que hoje estão no 6º ano terão que voltar a estudar no 5º ano, incomodam a comunidade.
Cintia Ganotti, 30 anos, mãe de uma aluna do 4º ano, reclama que sua filha não quer mais estudar. “Ela diz que a escola é uma mentira e está muito chateada”, conta. “Falaram que iam fechar a escola”, diz uma aluna de 10 anos, do 5º ano. A Secretaria nega que a escola será fechada e destaca que as informações são falsas e descabidas (veja nota abaixo). A direção da escola, segundo a secretaria, está a disposição para esclarecer dúvidas dos pais e alunos.

Alunos negam ajuda
A reportagem ouviu outros três estudantes que negaram ter recebido ajuda de professores durante a prova do Saresp. Ao contrário dos alunos que afirmam ter recebido auxílio da professora com quem tinham aula, esses estudantes dizem que somente uma docente de outra escola estava na sala durante a avaliação. Eles reconhecem, no entanto, que não foram os últimos a deixar a sala.
“Achei a prova fácil, porque a professora tinha explicado tudo durante o ano e dado muitos exercícios”, conta uma aluna de 11 anos. Um aluno de 10 anos diz que teve dúvidas em algumas questões, mas que conseguiu responder tudo. Ele conta que suas notas na escola variavam entre 6 e 8.
“A escola é o único benefício para nós, a gente tem que lutar, tem que defender. A gente quer provar a verdade e mostrar que (a nota) foi mérito das crianças”, afirma Talita Garcia, 28 anos, mãe de um dos alunos. Ela conta que estudou na Reverendo Augusto da Silva Dourado, quando a escola era um “vagão de trem”, e destaca as melhorias na infraestrutura conquistadas pela unidade nos últimos anos, como a construção da quadra.
Elenice Farias Ferreira da Silva, de 29 anos, também ex-aluna da escola, afirma que sua filha é ótima aluna e só tira nota 10. “Não acredito que a diretora ou a professora teriam coragem de fazer uma coisa dessas (fraudar o Saresp)”, defende. As mães ouvidas pela reportagem não sabiam que o bom desempenho dos estudantes garante bônus aos profissionais da escola, que podem ultrapassar R$ 8 mil.
Veja a nota da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, esclarecendo que a escola não será fechada:
"As afirmações sobre a possibilidade de fechamento da Escola Estadual Reverendo Augusto da Silva Dourado, apresentadas pela reportagem, são, além de falsas, descabidas no que se refere às providências que poderão ser tomadas a partir da apuração sobre a aplicação da prova do Saresp na referida unidade.
Se forem confirmadas as denúncias veiculadas sobre a aplicação da prova, os responsáveis serão punidos na forma da lei. Enquanto não forem concluídos os trabalhos de apuração, a Administração não se pronunciará sobre eles nem sobre pessoas envolvidas no caso.
Quaisquer que venham a ser as conclusões da averiguação em andamento, nenhuma delas poderá justificar o que está sendo irresponsavelmente propalado por meio de boatos e apresentado à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo pela reportagem. Na medida em que não encontram nenhum fundamento nos procedimentos correcionais da Administração Pública, essas afirmações são levianas, não colaboram para o esclarecimento dos fatos que estão sendo apurados e, acima de tudo, prejudicam a rotina da comunidade escolar, principalmente dos alunos e de seus familiares. Portanto, sua divulgação, por quaisquer meios, não pode ter outra motivação senão a má-fé."
Fonte: iG

domingo, 22 de abril de 2012

Mostrando a Língua - 43

Salve, gente!

Não sei se avisei a vocês, mas estive por Nikiti (Niterói-RJ) em uma imersão de latim- espetacular! - Vem novidade aí sobre um movimento nacional de professores de Latim, por Mercúrio! rssss
Fiz esta brincadeira porque mercúrio é o deus da comunicação e vocês são os primeiros (de minha lista) a serem comunicados do fato, ok?
Pois bem, vamos à dica (temos algumas acumuladas, mas estou trabalhando com a 'ordem de chegada').
A de hoje é uma sugestão de Sérgio David Haddad, nosso diqueiro que encanta a planície com sua música, ex aluno e, na aparência  (apenas!!!) , igual a 'Little Boy'. Hehehe
Eis a 'consulta' e a resposta a seguir:

Olá, Edinaldíssima!
Veja como e a quantas andam nossos meios de comunicação, onde erros grosseiros passam despercebidos (nesse caso, p mim não).
Veja a matéria no g1 no link:
“Ele estava de peruca, unhas postiças pintadas, pernas e braços depilados e usando um vestido cumprido. Estava maquiado, de batom na boca. Havia preparado e premeditado a ação”, diz Welber.
Existe diferença de comprido e cumprido, certo?
Então penso que é uma boa dica p galera.
Muita saúde, e tudo de bom!
Bjins

Pois bem, Sérgio e meus diqueiros,
Existe diferença e grande!
1-cumprido = realizado (é particípio do verbo cumprir)
2-comprido = longo (é adjetivo)
Ex.: 1- alguns jornalistas não têm cumprido adequadamente seu papel de multiplicadores das notícias, com coerência e adequação vocabular.
2- Ele estava de peruca, unhas postiças pintadas, pernas e braços depilados e usando um vestido comprido...
Ninguém suporta papo comprido.
Tais palavras são consideradas parônimas porque são parecidas, mas têm sentidos diferentes.
Que bom, né gente? Nosso objetivo de hoje foi cumprido, mas não foi comprido.
Grande abraço, bom domingo e, para amanhã, 23/4, salve, Jorge!
Edinalda

"Integrar é preciso"

Quanto mais acumulo experiências, tanto no setor público quanto no privado, mais me convenço de que o verdadeiro câncer destruidor dos possíveis impactos do enorme conjunto de investimentos hoje realizados na área social é a fragmentação das iniciativas. As incontáveis propostas, oriundas de políticas públicas, de ONGs ou do setor privado, todas absolutamente meritórias, perdem o poder transformador, na medida em que não dispõem de efeitos sinérgicos capazes de aumentar sua relevância.
No discurso, a maioria é favorável à ideia da parceria. Na prática, predomina a carreira solo. Isso porque não é trivial o processo de criação e consolidação de parceria, principalmente quando envolve setores com diferentes culturas, lógicas e interesses. Além de tudo, desponta o problema dos créditos. Qual o tamanho das logomarcas no material promocional? Quem é o porta-voz da parceria? A quem atribuir os resultados? Essas e outras são questões cruciais no complexo processo de ação conjunta.
Talvez o elemento mais importante na formação de parcerias seja a questão-foco. O problema a ser enfrentado pelos parceiros precisa ser considerado por todos como crucial, estratégico e urgente. Nesse sentido, o desafio do aumento de escolaridade da juventude brasileira, que afeta o futuro de nossos jovens (a inserção no moderno mercado de trabalho depende da conclusão do ensino médio), o futuro de nossa economia (apagão de mão de obra e baixa produtividade) e o funcionamento da sociedade (pobreza, desigualdade, violência), poderia ser bom exemplo.
Garantir que nossos jovens terminem os estudos básicos poderia constituir uma agenda educacional para a qual contribuiriam diferentes setores, níveis de governo e atores. Tendo como foco o acesso, bom desempenho e permanência dos alunos do ensino médio, todos os setores de políticas sociais poderiam focalizar, em seus programas, professores, alunos e famílias dessas escolas.
Visando tornar o contexto escolar mais atraente, a política de esporte e lazer poderia promover o esporte escolar, priorizar professores e alunos no acesso a eventos esportivos e oferecer oportunidades de aperfeiçoamento aos mais talentosos. A política de cultura poderia contribuir para a expansão do universo cultural de professores, alunos e familiares, priorizando o acesso a eventos culturais, promovendo diferentes formas de expressão cultural desses atores (festivais de música, concursos de poesia, olimpíadas de dança), e oferecendo oportunidades de desenvolvimento para os que se destacarem.
Enfrentando importantes fatores de deserção escolar, a política de saúde poderia desenvolver campanhas de esclarecimento sobre a gravidez não desejada, o uso de drogas, tabaco e álcool, bem como capacitar professores para a identificação de casos de usos abusivos, de doenças mentais, bem como ofertar atendimento prioritário aos casos identificados.
Como forma de estabelecer nexo entre educação e trabalho, bem como oportunizar ao jovem a aferição de alguma renda sem a necessidade de abandonar a escola, a política de trabalho poderia incentivar a Lei do Aprendiz, priorizando as organizações formadoras no investimento dos recursos do FAT, intermediar programas de estágio, além de promover feiras de empregabilidade voltadas para esse público.
Papel importantíssimo poderia ser assumido pela política de proteção social, assegurando as condições mínimas necessárias à permanência na escola. Nesse sentido, promover a documentação completa de alunos e familiares, garantir a inserção nos programas de transferência de renda para as famílias que necessitarem oferecer oportunidades de bolsas de trabalho protegido na escola (monitoria) ou na comunidade (agentes jovens) seriam algumas possibilidades de contribuição.
O grande coordenador dessa parceria de veria ser a política de educação. Caberia a ela conceber uma agenda social com metas claras, desafiadoras, mas factíveis. Em função dos resultados, identificar e priorizar projetos mais efetivos existentes, bem como lacunas em ações consideradas estratégicas. Identificar parceiros em outros setores do governo, em outros níveis, bem como em ONGs, institutos e fundações. Mobilizar o conjunto de forças em função das metas estabelecidas, criar sistemas de monitoramento e avaliação e ter cuidado em dividir os créditos.
Grande pacto pela educação, embasado em agenda concebida e implantada de forma participativa e responsável, poderia fazer a grande diferença para nosso desenvolvimento sustentável. O Brasil precisa.
Wanda Engel, in: Correio Braziliense (DF)

Inclusão educacional

Escola em tempo integral é a medida que vem sendo defendida por especialistas como saída para a Educação brasileira. O Ceará conta com 84 unidades e o Brasil terá, neste ano, cerca de 30 mil Escolas funcionando dentro desse regime integral. É fruto da execução do programa Mais Educação, que oferece uma jornada ampliada que deve beneficiar 5 milhões de estudantes, do primeiro ao nono ano, em todo o País, alcançando as zonas rurais. As atividades vão desde o acompanhamento de tarefas Escolares até a prática de esportes, aulas de arte e informática.
Embora alguns costumem traçar cenários impiedosamente pessimistas em torno do presente estágio da Educação nacional, há uma linha de educadores e economistas que revela a existência, nos últimos 20 anos, de um esforço de correção nas mazelas que, durante muito tempo, comprometeram a situação educacional brasileira. O quadro geral não seria tão decepcionante quanto aqueles críticos radicais o retratam.
A partir dos anos 1990, segundo pesquisas idôneas, verificou-se um inegável processo de inclusão educacional no Brasil, com resultados positivos na universalização do acesso à Educação básica, na elevação da Escolaridade média e quanto à expansão do acesso à universidade. Para justificar a assertiva, são apontados dados irrefutáveis: o número de universitários passou de 1,5 milhão, em 1990, para 3,5 milhões em 2000, atingindo o considerável total de 6,5 milhões no ano de 2010.
Os discordantes em relação a essas cifras evolutivas alegam que a sensível ampliação do acesso às Escolas, em todos os níveis, teria refletido de modo negativo nos indicadores da qualidade do ensino. Teria ocorrido uma piora, segundo esses contestadores, na medida em que estudantes cada vez menos preparados passaram a ingressar nas universidades. Esquecem os pessimistas de mencionar, entretanto, que há apenas 10 anos três milhões de estudantes nem sequer teriam obtido a chance que atualmente lhes pode ser proporcionada de ascensão de estudo.
Apesar do visível progresso obtido nas duas últimas décadas, ainda hoje, apenas um em cada cinco jovens brasileiros atinge o nível universitário. Na área do ensino, há perspectivas de que as acentuadas quedas da taxa de natalidade, por último observadas, cheguem a possibilitar que os investimentos na Educação, ora considerados de pouca monta, aumentem sensivelmente por cada aluno em futuro próximo, o que se espera venha a refletir, também, na melhoria da qualidade do ensino público.
Em exame realizado pelo PISA (Program for International Student Assesment), no qual a Educação brasileira ocupou muito modesta classificação, a Coreia do Sul ficou em primeiro lugar na categoria. Tais bons frutos resultaram de uma postura política que realizou maciço investimento oficial na Educação, aplicado de forma rigorosamente planejada. Há 30 anos, a Coreia do Sul possuía renda "per capita" similar à brasileira e agora a tem duas vezes maior do que a registrada no Brasil, graças a essa concepção de valores educacionais. A Educação é o alicerce fundamental da nação que deseja assumir um decisivo pacto com seu desenvolvimento, desde que sejam afastados do processo funcional de tal empenho quaisquer desvios ou vícios inerentes a esquemas de corrupção. O Brasil fez nas últimas décadas uma correção de rumos no plano educacional, mas esse caminho ainda está sujeito a reparos mais precisos e a uma eficaz vigilância capaz de protegê-lo.
Fonte: Diário do Nordeste (CE)

sábado, 21 de abril de 2012

Dividir a lição com o filho

A Educação do seu filho se faz dentro e fora da Escola. O dever de casa é dele, mas a tarefa é de todos, em especial de você mamãe. Participar mais da rotina de estudos dos pequenos no dia a dia já faz toda a diferença. A partir de temas que estão em debate na Escola, você pode acrescentar um toque lúdico ao ensino. Se o momento é de aprender a fazer contas, que tal somar e dividir pedaços de uma barra de chocolate? E se quando ele precisar de um reforço nas aulas de História? Já pensou em pesquisar curiosidades sobre a época para que a matéria fique mais interessante?
Agora, como saber se ele absorveu as informações ou só curtiu a brincadeira? É importante que a criança faça exercícios sobre o tema. O exercício é o momento onde se testa se realmente houve entendimento do que foi ensinado. Se a mãe não souber ou achar difícil estudar com seu filho, é recomendado procurar orientação, como um professor particular - as mães de outros alunos em dificuldade sabem quem são os bons professores particulares; converse com eles. Algumas Escolas também indicam educadores que já conhecem a metodologia de ensino da instituição.
Mas, nem assim você consegue que o seu filho fique concentrado por muito tempo nos estudos? É preciso ter horário, responsabilidades e deveres. Quem sabe o ambiente não esteja ajudando muito. Lugar de estudar é na mesa - não na cama, no chão. Um lugar tranquilo, sem barulhos ou TVs ligadas e com uma boa iluminação contribuem bastante para o pequeno manter o foco.
Por fim, fique atenta à Escola que você escolheu, ao horário que seu filho dedica ao estudo e acompanhe, principalmente, o desempenho da criança durante todo o ano letivo para evitar correria e estresse no fim do ano. Tente deixar claro a situação e os limites a seu filho, mas sem pressioná-lo em demais.

Natureza e a infância
Parece que toda a preocupação dos adultos em salvar o planeta está surtindo efeito nas próximas gerações. Um estudo feito revelou que as crianças estão, sim, querendo fazer parte desse movimento sustentável. Com a ajuda da internet, os pequenos estão mais inclinados a aprender sobre o meio ambiente do que a estudar matérias tradicionais como geografia ou história. A pesquisa feita com mais de mil crianças com idade entres 7 e 14 anos, revelou que 82% acreditam que é importante aprender sobre questões ambientais na Escola, e que mais da metade quer ajudar a salvar o planeta.
O número mais bacana de toda a pesquisa, é que 96% das crianças estão preocupadas com a questão ambiental, e já adotaram alguma atitude que acreditam que vai ajudar a preservar a natureza, como separar o lixo reciclável, fechar a torneira ao escovar os dentes, e apagar as luzes da casa quando não estão usando. Se até os pequenos estão ativos nessa luta pela natureza, os adultos têm mais é que servir de exemplo para que essa animação toda não desapareça com o tempo - e se espalhe para as crianças de todo o mundo. Afinal, são eles que vão herdar o planeta de nós.

Escolhendo o transporte Escolar
Levar e trazer os seus filhotes no colégio é um trabalho que diversas mães são obrigadas a delegar. E no momento de escolher o transporte Escolar é necessária muita atenção. É primordial verificar todos os detalhes e perder um pouco de tempo para fazer a escolha certa do prestador do serviço que será responsável pela segurança do seu pimpolho. Veja as recomendações.
Instituições de ensino que não tem frota própria de transporte para as crianças podem ter uma relação de transportadores, podendo não ter ligação ou terceirizado, cadastrados pela Escola. Por essa razão, solicite indicação à direção do colégio. Ou então procure referências com outros responsáveis, com o Detran da cidade ou Sindicato dos Transportadores de Escolares.
As mães podem e precisam telefonar para o Detran local para verificar se o ônibus ou van e o motorista possuem permissão para exercer o serviço de transporte de crianças. Outra coisa importante, é que a autorização do Departamento de Trânsito precisa estar à mostra na área de dentro do veículo em lugar que possa ser visto. Veja se ela existe e se está em dia, quer dizer que não esteja vencida. É fundamental, também observar se o veículo está de acordo com todos os itens de segurança.
Certifique-se de que o condutor possua habilitação para realizar o trabalho de transporte Escolar e que possua mais que 21 anos. Na carteira de motorista, a categoria mínima é D. Solicite que seja mostrado o certificado de direção defensiva e a carteira de transportador, como também os documentos de licenciamento e vistoria do ônibus ou van. Verifique ainda as condições como um todo do veículo. Observe se os pneus, lataria e bancos estão bem conservados. A limpeza também é essencial, pois desleixo com eles pode mostrar que o motorista não tem atenção com outras questões também.
Para que o veículo dos alunos tenha mais segurança o correto é que o transporte possua, até 7 anos de uso. E é obrigatório que ele possua seguro contra acidentes. É importante ainda contratar um veículo que tenha, além do condutor, um monitor que tenha atenção à segurança dos pequenos no transporte. Ele é importante porque por exemplo, ele pode evitar que os pimpolhos ponham mãos e a cabeça para fora da janela, que se levantem dos bancos com o transporte andando e que realizem brincadeiras arriscadas. Além disso, auxiliam a manter o material Escolar em lugar correto, para não prejudicar a segurança no decorrer do trajeto. Observe também como o condutor e o monitor tratam os pimpolhos. Estar bem entrosado é um ponto importante, já que não permite confusões no decorrer do trajeto.
Aproveite para anotar o nome, telefone, CPF e identidade do condutor e monitor, como também para passar seus telefones com eles, já que caso ocorra algum problema, tem como vocês se falarem. Saiba como será o trajeto realizado pelo veículo Escolar. Além disso, tenha atenção ao local de embarque e desembarque das crianças. Não aceite que seja realizado no meio da rua. O ideal é apenas pelo lado da calçada e supervisionado por um adulto.
Fonte: O Liberal (PA)

A miopia do modelo segregador de ensino

Recentemente, visitei a escola estadual Clarisse Fecury, situada na periferia de Rio Branco (Acre). Ela atende a 611 estudantes, dos quais 27 têm algum tipo de deficiência.
A natural interação entre crianças que, até pouco tempo, eram privadas do convívio social, é inspiradora. Alunos com limitações cognitivas e motoras participam da sala de aula comum e recebem atendimento especializado na própria escola, em horário complementar.
As aulas de Libras (Língua Brasileira de Sinais) são frequentadas por todos, não só por crianças surdas. Liderança comunitária, investimento contínuo em formação de educadores e reuniões diárias de planejamento são algumas das estratégias que explicam o êxito da escola na criação de condições genuínas de socialização e aprendizagem.
De acordo com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada pela ONU em 2006, os países devem assegurar um sistema de educação inclusiva em todos os níveis de ensino.
O Brasil, signatário, aprovou uma avançada legislação a respeito no governo Lula. A diretriz é que toda criança com deficiência, transtorno global de desenvolvimento ou altas habilidades (segmentos tradicionalmente encaminhados para escolas especiais) seja matriculada na rede regular de ensino e estude em classes comuns. O atendimento especializado continua a existir, porém, como um complemento realizado no contraturno do ensino regular.

Rodrigo Hübner Mendes, in: Folha de S.Paulo (SP)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Os brasileiros e o papel da leitura – parte I

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, em sua terceira versão, divulgada na semana passada pelo Instituto Pró-Livro, é o resultado de uma evolução desse tipo de trabalho em nosso país. Desde a primeira versão, no ano 2000, passando pela de 2007, os objetivos têm se mantido idênticos. Mas existem mudanças significativas entre cada uma delas, o que torna a comparação uma tarefa difícil e que deve ser empreendida com cuidados. Em primeiro lugar destaquemos as diferenças entre a pesquisa de 2007 e a atual. São duas diferenças importantes.
A primeira é a alteração da ordem das perguntas. Na Retratos da Leitura de 2007, depois das perguntas de qualificação de renda, classe, Escolaridade etc., o questionário começava pela percepção que o entrevistado tinha sobre a importância da leitura, o "valor" da leitura, a posição da leitura em relação ao uso do tempo livre e coisas do estilo. Só mais adiante é que se faziam perguntas objetivas relacionadas aos hábitos de leitura e consumo de livros, como quantos e de que modo haviam sido lidos. Na versão de 2011 - com 5.012 entrevistas realizadas em 315 municípios brasileiros - se inverteu a ordem.
Isso certamente teve um impacto no resultado das pesquisas. Existe uma percepção social da importância da leitura que é muito forte. Quando o pesquisado já sabia sobre o que tratava a pesquisa, podia tender a aumentar o número de livros lidos, ou mesmo mentir sobre se leu ou não. A valorização da leitura pode ter pesado na pesquisa anterior, inflando o resultado. A inversão da ordem das perguntas certamente melhorou a qualidade das respostas.
Outra modificação significativa foi a da redução do período em que se exigia a lembrança do pesquisado sobre seus hábitos de leitura, de um ano para três meses. Desse modo não se exigia um "puxar da memória" que podia induzir a distorções. Isso certamente aperfeiçoou a pesquisa, mas trouxe um problema: dificultou as comparações. Em 2011 estamos tratando de dados mais precisos, enquanto em 2007 pode ter havido certo "ofuscamento" involuntário nas respostas. As comparações, portanto, devem ser feitas a partir do conjunto de dados, e não simplesmente tabela a tabela, ou gráfico a gráfico.
Acredito que a esses fatores se deve a aparente diminuição dos índices de leitura entre as duas pesquisas. Jamais poderemos ter certeza absoluta de que essa diferença se deve a isso, ou somente a isso, mas essa é uma boa pista.
Retratos da Leitura no Brasil é uma pesquisa de opinião. O que se quantifica são opiniões, e essas podem se modificar por vários fatores. Mas o conjunto apresenta indicações preciosas para a formulação de políticas públicas que contribuam para que esse ideal de valorização da leitura se torne uma realidade. O importante é fazer perguntas à pesquisa, lê-la com atenção em função do que se deseja saber, procurando articular o conjunto das respostas. O que se apresenta aqui é um exercício de resposta a algumas questões apresentadas pelos dados da pesquisa. Cada leitor pode ter um conjunto de perguntas diferentes, e precisa se dedicar à busca de suas respostas.

Aumentou ou não o número de leitores no país?
Se considerarmos os dados brutos das duas pesquisas, o número de leitores e os índices de leitura diminuíram entre 2007 e 2011. Alguns outros indicadores permitem matizar essa observação: o número de compradores de livros aumentou e, principalmente, o número de leitores e compradores com idade de quem já saiu do sistema Escolar. As mudanças na aplicação do questionário, como já se disse, podem colocar em dúvida essa diminuição dos índices. No entanto, o conjunto dos dados, por sua vez, permite que se afirme que as políticas de promoção da leitura e de facilitação do acesso ao livro ainda não estão amadurecidas e produzindo efeitos.

Os autores preferidos como vêm e vão?
A lista dos autores mais admirados revela claramente três grupos de influência: Escola, religião e imprensa (escrita e televisão). O autor mais citado, Monteiro Lobato, já aparecia em outras pesquisas quando os livros de sua autoria estavam praticamente fora do mercado. Evidentemente por causa da exibição de "O Sítio do Picapau Amarelo" na TV e de subprodutos com a marca Monteiro Lobato e seus personagens. Os best-sellers mais recentes, principalmente os com foco no público juvenil, constituem a categoria de autores com maior mobilidade, mudando de acordo com os modismos. O bloco dos autores ligados à religião também tem mobilidade, com alguns entrando ("A cabana", de William P. Young e "Ágape", do padre Marcelo Rossi, estão entre os mais lidos), outros saindo e outros mais permanecendo. O bloco de autores "canônicos" revela a presença das exigências Escolares. Mesmo depois de sair da Escola, muitos vão se lembrar de Machado de Assis e José de Alencar porque "eram importantes", mesmo que sua leitura não fosse encarada com prazer quando estudavam. O mesmo vale para os poetas: os que aparecem (como Drummond) são basicamente os adotados, e apenas esses. O brasileiro "lê poesia" na Escola por obrigação ou pelo romantismo adolescente. As listas de best-sellers divulgadas pela imprensa são as mais voláteis, enquanto Escola e influências religiosas têm uma "cauda longa" na memória dos leitores.

Como as pessoas têm acesso aos livros que leem?
Esse quadro apresenta vários elementos de reflexão. Em primeiro lugar, o fato de a maioria dos livros lidos ser comprada, o que significa um forte componente do fator "renda" no acesso ao livro. Mas é notável que o empréstimo entre as pessoas seja o segundo modo de acesso. Isso indica duas coisas: a) um nível muito significativo de intercâmbios interpessoais entre os leitores - uma parte do "boca a boca" dos livros se resolve com empréstimos entre amigos; b) o empréstimo está suprindo parte das deficiências das bibliotecas, demonstrando iniciativa dos leitores e uma "demanda silenciosa" por melhores bibliotecas. Essas relações interpessoais se revelam também no fato de muitas pessoas ganharem livros de presente: 88% das pessoas afirmam que ganhar livros de presente foi importante. Em contraposição aos empréstimos, 5% dos livros lidos foram "xerocados": é outro evidente sintoma das deficiências das bibliotecas. O componente "renda" deixa claro: os livros estão caros e se fossem mais baratos, haveria mais compradores. Campanhas para presentear também deveriam estar na pauta de editores e livreiros.
Fonte: O Globo (RJ)

Os brasileiros e o papel da leitura – parte II

Quando se pergunta sobre a importância da leitura, há uma quase unanimidade acerca de sua importância. Em nossa sociedade, o valor da leitura é apreendido como fundamental, e 88% dos entrevistados dizem isso. Mas entre essa afirmação genérica e a prática há uma grande distância. Quando perguntados se conhecem alguém que "venceu na vida" por ler, 47% dos entrevistados dizem que não, e mais 8% não sabem. Há uma percepção social da importância da leitura e uma prática não leitora, que se deve a muitos fatores: Escolaridade (tempo na Escola e qualidade do ensino), renda, acesso, deficiências físicas (visuais) etc. A "ponte" entre formação profissional, sucesso, "vencer na vida" e leitura se perde na prática. Tudo indica que, neste caso, os entrevistados igualam leitura apenas com "leitura literária" e não consideram as leituras técnicas e científicas, por exemplo.

O papel da renda e da Escolaridade nos índices de leitura
Renda e Escolaridade são os dois fatores que têm maior influência nos índices de leitura. Essa tabela evidencia esse fenômeno de forma claríssima: quanto maior o nível de renda e de Escolaridade, maior o índice de leitura. A Escolaridade é o fator mais importante dos dois. A quantidade de pessoas com renda de mais de dez salários mínimos é menor que a quantidade de pessoas com Educação superior. A chamada classe A corresponde a apenas 2% da população total do país, enquanto os de nível superior de Educação correspondem a 11% da população (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios). Os leitores classe A são apenas 1% do total, e os com ensino superior são 16%. Entretanto, em números absolutos, são as classes B e C e os que completaram o Ensino Médio que constituem o segmento com mais leitores: 56% entre os que têm Ensino Médio e 81% nos que estão nas classes B e C.

Existem diferenças regionais significativas nos resultados?
Não se constatam diferenças nos índices de leitura e na compra de livros que possam ser atribuídas exclusivamente a fatores regionais. As diferenças que existem e aparecem entre as regiões se devem a fatores específicos de renda e Escolaridade. Por exemplo, o aumento dos índices de Escolaridade no Nordeste, nos últimos anos, reflete-se na pesquisa. Não por ser Nordeste, mas por conta do investimento mais intenso no sistema educacional da região, que recupera atrasos. O fato de as regiões Sudeste e Sul lerem e comprarem mais livros se deve a um fator de concentração de renda mais do que qualquer outro. Ou seja, a homogeneidade cultural do Brasil se revela também nesse aspecto, ao contrário de outros países onde fatores como línguas diferentes e tensões autonomistas eventualmente têm um papel relevante.

O número de compradores de livros cresceu?
Aumentou o número de compradores de livros. Eram 45% dos que liam em 2007 e passaram a ser 48% em 2011. O mais notável foi o aumento do número de compradores com idade acima dos 18 anos. Todas as faixas etárias aumentaram significativamente. O que isso quer dizer? As políticas de leitura nas Escolas, vagarosamente, mas de forma consistente, aumentam o interesse (e a compra) de livros fora da idade Escolar, apesar de o maior número de leitores ainda ser de estudantes. A renda, entretanto, ainda é um fator limitador para a compra de livros. Mas os números são impressionantes: são 1,978 milhões de compradores na classe A; 15,616 milhões na B; 20,79 milhões na C e 4,089 nas classes D e E. São 42,3 milhões de compradores no total, contra 36,35 milhões em 2007. Ou seja, a massa de leitores diminuiu, mas entre esses leitores o número de compradores de livros aumentou. De qualquer maneira, 85% dos entrevistados não compraram nenhum livro nos últimos três meses.

Por que as pessoas dizem que conhecem as bibliotecas e não as frequentam?
O Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais, de 2009, nos dá indicações. Apesar de existirem em 99% dos municípios, as bibliotecas são reconhecidamente mal equipadas. Apenas 25% delas têm mais de dez mil títulos no acervo; em 88% delas o acervo só aumenta por doações; apenas 12% abrem aos sábados, e só 1% abre aos domingos. As pessoas sabem que existe a biblioteca, mas não encontram nela o que buscam. O conjunto dos dados mostra que 70% dos que usam bibliotecas são estudantes. Resultado: 67% dos entrevistados sabem que existe biblioteca, mas apenas 7% as usam frequentemente, e 17%, ocasionalmente. Apenas 26% dos entrevistados têm acesso a livros por meio das bibliotecas. A faixa dos 5 aos 24 anos é a que mais usa as bibliotecas. O esforço para o equipamento das bibliotecas públicas e a instalação de bibliotecas Escolares deve ser intensificado. A população não usa mais as bibliotecas porque essas estão muito abaixo do mínimo de qualidade e quantidade de acervo e serviços desejáveis, e isso se reflete nos índices de leitura.

Os livros digitais
As informações sobre leitura de livros em formato digital são importantes para futuras comparações. Os leitores de e-books não são mencionados, registrando-se apenas a leitura em computadores. Já há uma base de tablets e e-readers no Brasil, mas ainda é pequena. O Programa Nacional do Livro Didático 2014 incluirá materiais digitais, com possível distribuição de tablets pelo MEC. Isso e a redução do preço dos e-readers podem aumentar a presença do livro digital.

O papel de Escola, imprensa e religião nas escolhas de leitura
Ao se falar de gêneros "lidos" é necessário tomar algumas precauções. A Bíblia não apenas é o livro mais vendido na maior parte do mundo (exceção do Oriente), mas também o mais citado como "leitura". Sabemos, entretanto, que a leitura da Bíblia se reveste de circunstâncias e formalismos: são versículos lidos aleatoriamente ou em função de cerimônias religiosas, às vezes seguindo um calendário próprio. O mesmo acontece com os livros didáticos, lidos em função de uma situação particular da vida das pessoas. A presença de livros religiosos em terceiro lugar, autoajuda em nono e esoterismo em 19º revela uma forte necessidade de buscas espirituais/filosóficas por parte dos leitores. A influência da Escola se revela em vários gêneros: didáticos, literatura infantil, literatura juvenil, poesia e dicionários e enciclopédias, assim como livros técnicos, todos fortemente vinculados às atividades Escolares e às leituras determinadas por professores. Culinária/artesanato/assuntos práticos e viagens revelam um interesse utilitário dos leitores. Finalmente, romances e as categorias restantes é que denotam o interesse pela leitura desvinculada de interesses extraliterários. A julgar pelos gêneros, a leitura da maioria das pessoas está muito vinculada a aspectos práticos de variados tipos, apesar da declaração de que a leitura "por prazer" seja feita por 75% dos entrevistados, contra 25% dos que leem "por obrigação". Mais uma incongruência entre o discurso e a prática.
Fonte: O Globo (RJ)

Aula de alfabetização e de competência

O país considerado a sexta economia do mundo ainda carrega o número de cerca de 15 milhões de analfabetos adultos. E apresenta sérias dificuldades para ensinar 100% de suas crianças a ler e escrever na idade certa: o Censo 2010 do IBGE mostra que 15% das crianças com 8 anos ainda são analfabetas; entre as mais pobres, o percentual vai a 29%, enquanto, entre as mais ricas, cai para apenas 1%.
Uma das falhas mais apontadas por educadores é que as escolas costumam colocar nas séries iniciais, onde ocorre a alfabetização, justamente professores iniciantes e menos preparados. Não é este o caso de um seleto grupo de professores da rede municipal do Rio, que mostram que é possível ter bons resultados mesmo trabalhando com alunos de áreas pobres.
Vânia Lima, Paloma Waite, Elaine Souza e Simone Alcântara são as primeiras colocadas num ranking dos professores de turmas de alfabetização com melhor desempenho. O ranking, no qual entraram 741 escolas municipais, é resultado de uma avaliação dessas turmas da rede em 2011 - e dá exemplos do que significa ensinar uma criança a ler, escrever e também entender.
A nota desejável na avaliação, com critérios da Provinha Brasil, do Inep, era 150. Todas as turmas nas dez primeiras posições tiraram mais de 220, e a maioria fica em áreas com baixos indicadores sociais: são da Zona Norte e Oeste sete das oito escolas da lista com as dez professoras mais bem colocadas (há duas escolas com duas turmas na lista).
Para ajudar a entender o que há em comum entre as professoras campeãs de alfabetização, O GLOBO filmou as aulas dessas profissionais e pediu à educadora Andrea Ramal, doutora em Educação pela PUC-Rio e autora de "Depende de você - Como fazer de seu filho uma história de sucesso", para identificar boas práticas (os vídeos podem ser vistos no site do GLOBO).
- Você precisa ter uma metodologia de trabalho. Mas, além desse planejamento sistemático, ser um bom alfabetizador significa você dar atenção personalizada a seus alunos. Tem que ficar atento aos ritmos de cada um. E ter orgulho de ensinar.
Nas três escolas visitadas pelo GLOBO, duas convivem com a violência ao redor. Uma estratégia comum às professoras é acalmar os alunos, seja colocando um CD para relaxarem, seja permitindo que falem um pouco dos problemas que os aborrecem antes de começar a lição.
As professoras incentivam a leitura desde cedo, mas também dão margem para que as crianças tenham papel mais ativo, construindo suas próprias histórias, em vez de apenas lerem textos decorados. E têm a preocupação de fazer com que todos os alunos aprendam, não apenas os melhores.
A secretária municipal de Educação do Rio, Claudia Costin, diz que um dos principais problemas diagnosticados ao assumir o cargo era o alto percentual de analfabetos funcionais na rede.
- Em 2009, aplicamos uma prova nas escolas municipais e constatamos que tínhamos 28 mil estudantes analfabetos funcionais. No 4, 5 e 6 anos, 14% dos alunos liam sem entender ou desenhavam a letra sem saber o que era - conta a secretária.
- Realfabetizamos esses alunos, tirando-os das suas turmas para fazer grupos de reforço de um ano. Mas também precisávamos melhorar a alfabetização, senão continuaríamos a produzir analfabetos funcionais.
Uma das ações para combater o problema foi justamente a criação de avaliações das turmas de alfabetização: uma quando o aluno entra no 1 ano (antiga classe de alfabetização); uma segunda no meio do ano; e uma terceira, que ganhou o nome de AlfabetizaRio e é aplicada ao final do ano letivo, por uma instituição externa (em 2011, a segunda edição da avaliação, foi a Consulplan).
Base das avaliações do AlfabetizaRio, a Provinha Brasil será reformulada pelo MEC. Hoje, o resultado das provas aplicadas nas escolas não vai para o ministério, ficando para exame dos próprios professores. A ideia é fazer com esse resultado também seja enviado à pasta.
Fonte: O Globo (RJ)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Professores têm preconceitos contra gays

Para o estudo, que tem apoio do Ministério da Educação (MEC), foram entrevistados professores, diretores, funcionários e alunos do 6º ao 9º ano do Fundamental de 44 escolas estaduais e municipais de 11 capitais do País, entre elas São Paulo.
Os depoimentos, colhidos entre 2009 e 2010, falam de Educação sexual, homossexualidade e preconceito. Na maioria das escolas, casos de bullying contra gays são encarados como brincadeiras naturais, o que torna a homofobia um problema invisível. Alguns relatos presentes no relatório expressam, ainda, profundo desconhecimento sobre a sexualidade.
Um educador de São Paulo diz, por exemplo, que sente “pena” dos gays e afirma não saber se a homossexualidade “é uma doença” ou se o jovem “fica assim” por ser criado no meio de mulheres. Outro, também da capital, diz que a homossexualidade pode ser detectada pela anatomia, já que as lésbicas não teriam “cintura afinada.”
Cada cidade recebeu seis pesquisadores, que criaram grupos de discussão e observaram o cotidiano das escolas. Coordenadora do estudo, a ginecologista Magda Chinaglia participou das entrevistas em São Paulo. E diz que uma das principais constatações é a de que a Educação sexual é deixada de lado. “Ela não existe, embora seja uma política bem antiga. Quando existe, está focada no lado biológico. A sexualidade não é discutida e os professores não se sentem preparados.”
Magda conta que casos de homofobia foram presenciados até mesmo pelos pesquisadores. Uma garota da capital contou o que ouviu dos colegas: “Eles vieram pra mim e disseram: ‘Você não é bem-vinda aqui, nós não te aceitamos. Além de ser baiana, você ainda é sapatona?’ Falaram um monte de coisas”. Um outro estudante disse que seu amigo teve de sair da escola por causa do preconceito.
Apesar dos relatos dos jovens, as autoridades escolares afirmaram, quando questionadas, não terem conhecimento dos casos. “Diretores e professores não veem as situações mais graves”, diz Magda. Segundo ela, a homofobia não é enxergada porque está naturalizada e foi incorporada ao cotidiano escolar. No documento, os próprios professores reconhecem que não sabem lidar com o problema e um deles diz que a “escola reza” para que “essas coisas” não aconteçam, “para não ter de resolver”. Outro admite: “Não estamos ainda aptos para falar disso. O que a gente fala é o superficial”. Eles também apontam os pais, que desaprovam aulas de Educação sexual, como empecilho.
“Cada situação dessas mexe comigo. São coisas que vivi na escola, senti na pele. Surpreende a professora falar que, se você é homossexual, é democracia a outra pessoa o xingar”, diz o educador Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT). Ele se refere ao jovem gaúcho de 15 anos que, no mês passado, foi agredido na saída da aula após assumir ser gay. Ao perguntar para a professora por que não interferia, ouviu que “os outros tinham direito de se expressar daquela forma.”
Reis estudou a homofobia nas escolas em seu doutorado. “Temos várias políticas públicas estabelecidas no âmbito nacional e estadual, mas não estão chegando às escolas”, diz. A conclusão de seu estudo é semelhante àquela indicada pela Reprolatina: até existem professores sensibilizados para o tema, mas falta capacitação para que aprendam a lidar com o problema.
Fonte: Jornal da Tarde (SP)