quinta-feira, 14 de abril de 2011

Poeta ou poetisa?

Aproveitando o belíssimo trabalho de “diqueira” da Língua Portuguesa que a nossa querida mestra e amiga professora Edinalda faz, aproveitei e lancei uma pergunta que sempre arrastei durante todos esses anos de professor e de cuja resposta desconfiava, mas sem o embasamento necessário.
Perguntei-lhe por que as pessoas utilizam a palavra "poeta" para designar mulher que compõe poema, se na nossa Língua há "poetisa" para se referir ao gênero feminino? Inclusive, percebo claramente que até mesmo as poetisas se autointitulam “poetas”.
Sei que muitas vezes não é fácil responder certas perguntas sem ferir suscetibilidades, mas... vamos à resposta:
Já escrevia Cecília Meireles, no poema "Motivo":

"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta".

O feminino de poeta sempre tinha sido poetisa; contudo, essa forma adquiriu um tom pejorativo, por lembrar aquele tipo de senhora que se veste espalhafatosamente, ‘carrega’ no perfume francês e participa das reuniões dessas dezenas de “academias femininas de letras” que brotaram como flores silvestres por todo o território nacional na primeira metade do século XX. Na sua santa ingenuidade, ao criarem essas instituições femininas paralelas, estavam simplesmente reforçando a crença chauvinista de que as “verdadeiras” academias eram privilégio dos homens.
Por causa disso, alguns críticos e intelectuais, ao falar de alguém do quilate de uma Cecília Meirelles, por exemplo, começaram a dizer: “É uma grande poeta!”. A moda pegou no meio literário e acadêmico: o vocábulo passou a ser usado por muitos como se fosse um comum de dois (aqueles substantivos como atleta, artista, estudante, jovem, etc., que têm uma só forma para os dois gêneros, mas se distinguem pelo artigo). Hoje, portanto, podemos escolher entre as duas formas de feminino: ou usamos poetisa, ou simplesmente poeta.
Não podemos nos esquecer, no entanto, da formação do afixo –isa, como em “profetisa” e “sacerdotisa”, conforme as gramáticas de Bechara e de Cunha, e os dicionários Houaiss e Aurélio.

Um comentário:

  1. Eri,
    Sou suspeita para postar comentários sobre vc, dada a grande admiração que tenho por seu competente trabalho pela Língua Portuguesa e pela Latina.
    Obrigada, em nome dos deuses da Língua e de nós, pobres e falantes mortais!
    abçs da
    Edinalda

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