domingo, 4 de setembro de 2011

Oração na escola pública: pode ou não pode?

Uma situação inusitada ocorreu em seis Escolas públicas da Educação infantil do Plano Piloto, DF. Ambas foram denunciadas pelos pais por misturarem religião com Educação. Segundo a denúncia, todos os dias os alunos rezam antes de iniciar as atividades Escolares.
Interessante que não há um consenso entre os pais dos estudantes se pode ou não rezar antes das aulas. Há pais que defendem a prática, pois colabora na formação de valores. Já outros são contra a oração diária, afirmam que não se pode confundir religião com Educação.
Esse caso é comum em muitas Escolas públicas do Brasil. Ainda não está claro para muitos educadores, educandos e familiares o lugar da religiosidade na Educação pública. A denúncia dos pais no DF não diz respeito à disciplina ensino religioso (ER).
Embora a matriz curricular do ER deva abordar a oração nas religiões, não é papel da disciplina assegurar no espaço educativo a oração diária de uma ou outra confissão religiosa. A principal tarefa do ER é salvaguardar o estudo do fenômeno religioso presente na diversidade cultural.
Na perspectiva das ciências da religião, o ER “favorece as práticas do respeito, do diálogo e do ecumenismo entre as religiões. Contribui, desse modo, com uma Educação de caráter transconfessional que poderá incidir na formação integral do ser humano.”
É preciso compreender o ER como um componente curricular como outro qualquer, que tem a possibilidade real de contribuir no processo de formação ético-crítico dos estudantes.
Ao estudar o fenômeno religioso presente na diversidade cultural, suscita reflexões acerca da história das religiões, dos seus ritos e orações, das suas revelações e doutrinas. A influência desses elementos ou não na vida das pessoas e na sociedade.
Ratifica com os estudantes que não precisamos de uma religião una. “Certamente a sociedade não necessita de uma religião unitária nem de uma ideologia única. Necessita, porém, de normas, ideais e objetivos que interliguem todas as pessoas e que todos sejam válidos.”
Compreendido o papel do ER na Educação básica, precisamos dialogar sobre outra questão fundamental: é legal misturar religião com Escola pública? No Estado laico, a imparcialidade é fundamental. A oração, enquanto prece dirigida a Deus, assume um caráter de parcialidade.
Quem conduz uma oração, sempre traz consigo sua religião, seu modo de ver o mundo e falar do transcendente. Penso que aqui cabe muito mais a perspectiva do proselitismo do que da uniformização. Eis o risco de uniformizar o que é plural.
Independentemente da intencionalidade da oração na Escola pública, que pode ser positiva quando contribui na harmonia da Escola, na disciplina e formação ética e de valores dos estudantes, e negativa quando for utilizada para alienar o educando ou catequizá-lo desconsiderando sua religião e cosmovisão, há outras maneiras mais adequadas na ambiência da Escola pública para salvaguardar harmonia, ambiente favorável para o ensino-aprendizagem e contribuir na formação ético-crítico dos estudantes.
Diante da crise ética no DF e no Brasil, a Educação básica, iniciada na Educação infantil, pode e deve salvaguardar no espaço e tempo da Escola pública uma formação integral dos estudantes. Por que não incluir no currículo a disciplina de ética?
Filosofia para crianças, para que possam desenvolver a reflexão e a criticidade? Parece-me que formar cidadãos conscientes e comprometidos com uma sociedade mais justa, solidária e ética não é interesse de grande parte dos nossos políticos. Por que será?
Oxalá a Educação básica, desde a Educação Infantil ao ensino médio, foque a formação integral dos estudantes, emancipe disciplinas ainda na periferia, como a filosofia, a sociologia e o ensino religioso, e desperte nos estudantes o protagonismo na construção de uma sociedade mais justa, solidária e sustentável.
Jorge Luis Vargas dos Santos, in: Correio Braziliense (DF)

5 comentários:

  1. Erivelton,

    essa história me revolta desde que minha filha de 4 anos voltou para casa falando em papai do céu e dizendo que eles não podiam comer o lanche se não orassem antes.

    Ensino Religioso é uma coisa, fazer as crianças orar é outra completamente diferente. Dizer que a oração é opcional é simplesmente ridículo e considero essa resposta como vergonhosa pela escola. Não acho correto fazer minha filha se separar dos amiguinhos e ficar sosinha durante uma manifestação escolar. Ela não vai gostar disso e nem eu. Com 4 anos isso é maldade! Não é ela que tem que sair do grupo na oração, é a escola que tem que respeitar a opção religiosa de seus alunos e parar de impor suas crenças nos filhos dos outros.
    Isso tem acontecido na escola da 308 Sul e estamos tentando resolver isso diretamente com a diretoria e os professores, mas se insistirem nessa situação não pensarei duas vezes em chamar a secretaria de educação.
    Sou de acordo com o ensino religioso após a 6ª série e me refiro a ensino religioso e não catolicismo forçado. Eu estudei na Italia, o país mais fervorosamente católico/cristão do planeta e lá o Ensino Religioso era opcional, o aluno podia sair da aula e ficar passeando na escola caso não quisesse participar, além do mais se ensinava religião; aprendi um pouco sobre todas as religiões, todas. As aulas te ensinavam um pouco de cada religião e não te forçavam a aceitar nenhuma.


    Aos que são de acordo com a oração nas escolas públicas faço a seguinte pergunta:

    O Brasil é laico, você gostaria que seu filho tivesse que todos os dias recitar o Alcorão ou agradecer a Vishna antes de poder lanchar? Você aceitaria isso sem reclamar nada?

    Responda apenas sim ou não e entenda a situação dos milhões de brasileiros que não são católicos!


    p.s.

    No Brasil (e não só) apenas uma religião força desesperadamente suas crenças sobre os outros, apenas uma é intolerante com as outras religiões e pensamentos, apenas uma religião te julga mal por discordar de sua crença... e apenas uma religião se acha melhor do que qualquer outra pessoa de outra religião... que religião é essa?

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  2. Caríssima, obrigado pela participação!
    Nunca concordei com ER nas escolas. Isso é função da família, mas a escola pode ensinar ética, cidadania, religiosidade e respeito às diversidades sem entrar no campo das religiões, pois, queira ou não, os professores de ER acabam direcionando suas aulas para os postulados defendidos pela religião que abraça, isso é inevitável.
    Quanto à prece, esta deve ser sempre espontânea, pois trata-se de uma exteriorização do sentimento de religiosidade de cada um.
    Acredito que o melhor caminho sempre seja o do diálogo, pais-escola, pois só teremos uma Educação de qualidade quando este dois segmentos se unirem num objetivo comum.
    Atte,
    Erivelton

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  3. Eu acho que é certo o ensino religioso nas escolas, porém se uma pessoa é de outra religião ou é ateu, nao tem que forçar-la a acreditar nessa religiao. A religião é uma crença, um voto de fé, não algo que te forçam a acreditar a qualquer custo. Imagina só se voce não tivesse nem opção de escolher!
    Acho muito bom alguém ter uma religião, mas não forçadamente. De que adianta ser de uma religião, se voce não acredita de coração,se não vem de dentro?

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  4. Prezado Erivelton,

    Quero parabenizar pelo blog, sobretudo pelas reflexões e debates.

    Todavia, ao ler o texto acima: oração na escola pública, pode ou não pode? identifiquei um erro, o texto não foi escrito por Afonso Soares, conforme você cita. O presente texto foi escrito por Jorge Luis Vargas dos Santos.

    Por favor, reveja a citação.

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